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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Lata d'água na cabeça

Por Leandro Santolli

Retratar a vida das carregadoras de água do rio é mote do espetáculo ‘Estandarte’ da Cia. DançArt de Sergipe. A priori espera-se um espetáculo que retrate a luta dessas mulheres em suas comunidades e afins, que explore seu gestual, cantos, etc. Mas a falta de clareza na construção do espetáculo impossibilita este entendimento.

O espetáculo começa visualmente muito bem, com a diversidade de perfis femininos retratados no palco, as lavadeiras, a carregadora de água, a religiosa e por que não dizer “santa”. As bailarinas sentem e transmitem estes personagens com muita inteligência nos dando a idéia de um espetáculo com bastante potencial, principalmente por conta da trilha que dialoga com a idéia exposta. Porém talvez por falta de direcionamento o espetáculo cai num marasmo, e isto se deve inclusive pela falta de atenção aos detalhes e o quanto estes fazem a diferença no palco.

Coreograficamente não é rico, por hora falta um entendimento dos bailarinos, principalmente por que na tentativa de muito representar, a canastrice vem à tona. Falta um direcionamento artístico. O elenco tem bastante presença cênica, mas não convence em suas ações, não podemos culpá-los por isso, e é claro que uma direção, um olhar crítico de fora do grupo faria bastante diferença.

O figurino assinado pelo Atelier Mundo da Lua é bonito, mas bem longe disto lavadeiras não usariam roupas tão brancas, poderia passar despercebido mas estamos tratando de um conceito definido e defendido pela Cia em sua pesquisa. Na segunda parte do espetáculo a saia branca é trocada por outra nas tonalidades de dourado e vermelho, nos fazendo desacreditar ainda mais no que está sendo proposto.

O desenho do figurino não é ruim, mas não cabe a proposta de “encenação”. Assim também é o macacão collant pérola usado pelo bailarino, fugindo e destoando completamente de todo o grupo e é muito difícil encontrar um significado coerente para o mesmo.

O cenário é simples, com tecidos de chita, o uso ou não do mesmo teria o mesmo efeito, e os adereços de cena poderiam também fazer jus ao que é proposto, afinal lavadeiras lavam roupas, não somente tecidos. Além das latas, supostamente d’água, estarem leves ao extremo. Claro que isto embeleza a cena, mas se existe uma pesquisa por traz, automaticamente tudo deve ser pensado e questionado.

A trilha poderia ser bem mais estudada, e não é difícil criar uma trilha para um espetáculo com esta concepção. Mônica Salmaso, Denize Aragão, Léo Moraes, Elza Soares, Radamés Gantalli, Victor Assis Brasil compõe a escolha da Cia. Por vezes acertam na escolha, mas o uso de muitas músicas de MPB como Maria Rita faz com que o espetáculo caia no tédio, talvez músicas certas para o conceito de espetáculo errado.

O que dizer de Fascinação para uma cena de lavadeiras? Difícil encontrar algum sentido, mas por sorte Elza Soares nos salva deste momento. Se Renata Rosa estivesse na trilha, ou até mesmo as cantoras da Mussuca de Laranjeiras, certamente esta seria bem mais rica, mas vale ressaltar que o fade de uma canção para outra foi muito bem editado, imperceptível até.

A iluminação do espetáculo assinada por Henrique é na sua totalidade muito boa, é o que o espetáculo tem de melhor, e ganha muito por isto, é notório que o iluminador entendeu o mote do trabalho e executou de maneira formidável.

O ponto mais alto do espetáculo é a cena final, as lavadeiras entoando seus cânticos enriquecem o trabalho, e a presença cênica dos bailarinos vem à tona. O final do espetáculo de fato emociona e convence, é muito estruturado e inteligente, fica nítido que o tal estandarte é a lata d’água. O complicado é entender se o estandarte neste caso está associado a um troféu que poderia ser exibido com orgulho.

2 comentários:

leandra disse...

adorei a crítica, assisti o espetáculo, gostei, mas concordo que poderia ser mais limpo. Achei que o introsamento entre os componentes também ficou a desejar. Enfim, pode melhorar.

Anônimo disse...

Que crítica pobre...

Ao invés de observar e mergulhar na estética que há no espetáculo, fica procurando furo em peneira...

Poderia até contribuir com alguma coisa, mas prefere se utilizar de uma postura etnocêntrica com relação a produção de quem quer produzir algo.

E tem mais: nunca ouvi falar em Leandro Santolli. Deve ser por isso que o blog tenha tantos comentários e tantos acessos. Falar é sempre fácil. Poderia elaborar algo e passar pelo crivo de pessoas que não contribuem efetivamente, apenas falam do seu próprio mundo...

André