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terça-feira, 29 de março de 2011

Descortinando o Véu


Por Leandro Santolli
Foto : Alessandra Nohvais


Há pelo menos um século o estatuto da obra de arte vem sendo vertiginosamente modificado e, ao que parece, se alargado ao encontro dos territórios mais banais, diversos e controvertidos (alguns, inclusive, nada estéticos) da vida cotidiana. Tudo indica que a arte, como nenhum outro campo da cultura, constitui uma espécie de buraco negro em incessante expansão, sendo capaz de se alimentar de tudo aquilo que, ao longo de sua labiríntica trajetória, tenta negá-la ou destruí-la. Basta recorrer a exemplos implacáveis como os de Antonin Artaud, John Cage, Alan Kaprow, Andy Warhol (todos hoje, venerados) e, claro, o bom e velho Marcel Duchamp, cujo gesto meramente chistoso de inscrever um simples urinol de porcelana na exposição da Society of Independent Artists, de Nova Iorque, em 1917, o rende até hoje o título de gênio.

Um dos maiores legados deixados pelas vanguardas artísticas e, especialmente, pelas experiências performativas que começam a se proliferar por todo o mundo a partir dos anos 60, foi a dessacralização do objeto de arte. Esse movimento, mais ou menos organizado, no Brasil, contou com o reforço do neoconcretismo e os seus não-objetos, bem como de diversos artistas performáticos e de um certo teatro disposto a quebrar a distância entre os corpos e o fio racionalista. Desde então, o degelo desta aura protetora da obra de arte, lentamente, vem deixando o público cada vez mais à vontade para tocar, trocar, experimentar, inter-agir. O artista, com isso, passa a habitar um outro lugar, acessível em pleno voo, deixando de ser aquele gênio da razão transcendental, ao qual só devemos aplausos, no final, para não atrapalhar.

Entretanto, nesse contexto de densa ressignificação da obra de arte e, especificamente, do teatro (já apelidado de “pós-dramático”), ainda se espera, em geral, de um ator em cima do palco, que nos conte uma história inteligível em sua totalidade, previamente escrita, de preferência tendo um final memorável; e que faça isso interpretando um ou mais personagens que, claro, defiram visivelmente de si, e cujas indagações não devem ser respondidas (ao menos não em voz alta!) por nós, espectadores. Véu , uma poética do só , com texto e direção de Luiz Antônio Junior , é a materialização de uma verdadeira obra de arte com todos os ingredientes fundamentais expostos. O espetáculo nos remete a uma reflexão do universo feminino, partindo da violência contra a mulher , seja sexual, física, moral, psicológica, como uma colcha de retalhos, onde o ator-criador vai costurando personagens, situações fictícias ou não , musica e informações, e o faz de maneira singular. A narrativa que traz a tona uma realidade velada nos direciona a uma reflexão profunda sobre a mulher ‘vítima e culpada’, mulheres outrora escondidas pelo medo, pela vergonha, pelo desamor, e como o próprio diz ‘ escondidas no véu da vergonha’.

Olhar um ator em cena é ver suas máscaras e também o homem ocultado pela personagem. E Luiz Antonio com seu coração e suas máscaras se impõe em cena, mostrando que para estar na vida é preciso viver. Véu não é uma criação genesíaca. Trata-se de um espetáculo que faz parte de uma tradição de arte contemporânea que põe os explicadores (exegetas, como gostam de dizer na academia) em desordem e expulsa sumariamente os juízes de carteirinha. Luiz sente esse trabalho em diversos níveis de composição de atuação, as linhas entre verdade/mentira e ator/personagem são mínimas. Nesse campo, dialoga inclusive com o cinema de Eduardo Coutinho, onde a realidade e a ficção se misturam e se confundem, é notório e intensifica um suposto desejo em 'experimentar no teatro'. Véu parece ainda mixar gêneros diferentes, aproximando a estrutura de um monólogo a um reality show interativo, em que o público participa, e é estimulado, desde o início. Não se trata de uma exortação agressiva, e CHATA, como muitos dos espetáculos da década de 1960 e de 1970 que ainda fazem eco em algumas produções artísticas contemporâneas. O público não se sente constrangido pelo, performer/ator que se encontra em cena. Aliás, essa experiência direta com o público é um dos pontos altos do espetáculo, o qual foge a rótulos classificatórios (“gênero nenhum me pega mais”, já dizia Clarice).

É um trabalho que baseia experiência teatral numa ambiência particular. E Luiz em meio a este turbilhão de pensamentos, possibilidades, reflexões, continua lá organicamente na cena, faz de si mesmo uma obra de arte; mostra-se humanamente falho e por isso encantadoramente uma obra prima.

O espetáculo foi assistido no dia 26 de março em Alagoinhas-BA , no Centro de Cultura e Arte | Fez parte da programação do Festival Arte para todos , do qual a Blog Síncope participou como convidado

segunda-feira, 28 de junho de 2010

'Tradilizada'




Por Leandro Santolli
Foto: Clotilde Tavares

A transformação das quadrilhas juninas tradicionais em direção a quadrilhas estilizadas revela uma faceta do debate sobre a globalização: o ressurgimento de culturas com bases locais ao invés da tão propagada padronização cultural. Mais do que isso, são manifestações culturais contemporâneas (re)significadas para atender as demandas de consumo da sociedade midiatizada onde se misturam as experiências tradicionais e modernas, chamando a atenção para sua beleza mas também por sua sua origem na periferia da cidade, próxima às experiências dos excluídos, dos mais marginalizados pela sociedade.

Nestes dias de 'período junino' fui convidado a integrar o corpo de jurados da fase classificatória do Concurso do Centro de Criatividade, um concurso tradicional que a 25 anos recebe em torno de 50 a 60. A minha observação se voltou para a forma de apresentação destas, que se exibiam para os demais jurados, e para as movimentações dos seus brincantes, do pessoal de apoio, dos familiares e das torcidas antes das apresentações.

Na concentração a ansiedade aumenta quando se aproxima a hora da exibição do grupo, uns soltam gritos de guerra, outros pedem proteção ao seu santo de devoção, repassam a coreografia e tudo sob os olhares dos familiares, amigos e torcedores. São jovens entre 16 e 35 anos, e que com muito sacrifício e contra todas as diversidades organizam, cada qual, o seu espetáculo. Cada quadrilha tem o seu enredo, a sua alegoria e a sua coreografia.

Mas por que tanto alarme e aversão quando se trata de quadrilha tradicional e estilizada ? É por que foge ao estilo considerado tradicional? Por que os seus figurinos e adereços não representam o matuto flagelado, ou o sertanejo típico Jeca Tatu? Ou ainda por que não é marcada em francês tupiniquim? A sociedade humana tece a sua cultura através dos mundos de experiências vividas em momentos históricos diferentes e de natureza paradoxal, justamente porque nada é igual no tempo e no espaço onde se manifestam as suas culturas, nem mesmo com a globalização isso é possível. Portanto, com a globalização cultural o que assistimos é o ressurgimento de culturas com bases locais ao invés da tão propagada padronização cultural. É evidente que são manifestações culturais contemporâneas (re)significadas para atender as demandas de consumo da sociedade midiatizada onde se misturam as experiências tradicionais e modernas.

Vejo nas “quadrilhas estilizadas”, ou mesmo nessas manifestações culturais o início de um novo gênero misto de dança e folguedo, tradicional e moderno, com grande potencial de comunicação desses jovens com o mundo de fora. A quadrilha campeã receberá o prêmio de R$ 2.000,00 e logo ali pertinho, no palco principal do Forró Caju se apresentam as bandas que, com certeza, receberam polpudos cachês. As quadrilhas gastam em torno de R$10.000,00 a R$ 40.000,00. São esses tratamentos desiguais entre os produtores das culturas tradicionais e os produtores das culturas midiáticas que precisam ser revistos, não só pelo poder público, mas pela sociedade como um todo. Não podemos continuar olhando meio atravessado as quadrilhas juninas contemporâneas, e sim tentar compreender as significações das redes cotidianas de sociabilidades desenvolvidas por esses grupos culturais nas suas comunidades e nos palcos de exibições.

É possivel perceber ainda  as quadrilhas estilizadas ou as tradicionais, nos festejos juninos atuais, como estratégia de inclusão social desses jovens que lutam o ano inteiro para organizar o espetáculo. É, sem dúvida, um novo formato de “grito” também da periferia para o centro, como se falassem para todos nós: “gente, estamos aqui!” Portanto, esses grupos de jovens deveriam receber maior apoio do poder público e privado, promotores do Maior São João do Mundo.

sábado, 8 de maio de 2010

Galeria Álvaro Santos recebe exposição fotográfica


Na próxima quinta, 13, às 20h, na Galeria de Artes Álvaro Santos será realizada a abertura da exposição ‘Pelas Ruas de Havana’, do fotógrafo José Aquino. São 40 fotografias que retratam as peculiaridades da capital cubana. A mostra fica em cartaz até o dia 25, pode ser visitada de segunda a sexta das 8h às 18h e aos sábados das 8h às 12h.

Sobre o fotógrafo

José Aquino, 49 anos, é amante da fotografia desde criança. Começou a fotografar em 1994, quando participou de um curso no Senac. Em 2001 organizou sua primeira exposição individual ‘Retratos Alternativos’, seguida de ‘Meninos’ (2001), ‘Velho Chico’ (2002); ‘Caboclinhos e Lambe-Sujos’ (2004); ‘Vidas do Barro’ (2007) e ainda “A imagem da Sintonia Humana” (2009).

Desde 2009 ministra o Curso Compacto de Fotografia Digital, passando adiante seu conhecimento na área. Os alunos dos cursos já participaram de três exposições: ‘Crepúsculos’ (2008), ‘Em busca de Abrigo’ e ‘Sentimentos’(2009). Aos interessados em participar dos curso uma nova turma está sendo formada, com início no dia 22 de maio. Maiores informações no site do fotógrafo: www.joseaquino.com.br.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

‘Perfume’ entra em cartaz no Lourival Batista


Nos dias 6, 13 e 28 de maio estará em cartaz no Teatro Lourival Batista o espetáculo ‘Perfume’, montagem da Companhia de Dança Espaço Liso. As apresentações iniciam às 20h30. Os ingressos podem ser adquiridos por R$ 15,00 (inteira) e R$7,00 (meia).

Baseado na estética da dança contemporânea, com alguns elementos teatrais , “Perfume" tem sua concepção na conflituosa relação entre amores e lembranças, que vêm à tona em fluxos da memória ativados pelas fragrâncias. O espetáculo é provocativo, apresenta sensualidade e lirismo através das linguagens do audiovisual, da música, do teatro e da literatura. Durante o espetáculo a platéia poderá sentir diferentes aromas, ativando as lembranças individuais evocadas pelo olfato. 

Elenco: André Bonfim, Raquel Leão, Dayanne Alves, Fernanda Matos , Luanda Ribeiro, Amelhinha Sá e Ewertton Nunes.
Músicos: Everson Vimes, Reginaldo Pereira, Tontoy.
Direção Musical: Tontoy
Músicas: Everson Vimes e Ewertton Nunes
Direção coreográfica: Ana São José
Concepção, Coreografia e Direção Geral: Ewertton Nunes
Trilha Sonora: UBANDU
Músicos: Everson Vimes, Reginaldo Pereira,Ângelo Litlle, Léo Silva e Tontoy
Participação especial: Héloa Rocha

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Vencendo a invisibilidade


Por Maíra Magno*

A respeito do cochicho e desconforto que o blog [Síncope] vem causando entre a classe dos bailarinos de Aracaju, gostaria de lembrar a meus colegas alguns fatos:

Na verdade é a primeira vez que temos um material escrito dedicado à crítica de nossos espetáculos, é a primeira vez em quatro edições da semana de dança e em décadas de existência das Danças Cênicas em Aracaju que alguém perde seu tempo, deliberadamente para escrever algumas linhas comentando nossos trabalhos, tivemos a matéria escrita por Natália Vasconcelos no jornal da UFS no ano passado, mas esta se dedicava mais a cena de dança na cidade que aos espetáculos  em si.

Isso significa que: 'Amém, Aleluia, Glória Deus', não somos mais invisíveis. Afirmamos tantas vezes o ser, no próprio encontro dos artistas de dança de Aracaju essa expressão foi dita várias vezes por vários colegas. Produzimos e nossas produções morrem na estréia, os espetáculos não reverberam, ninguém comenta só sobrevivem na memória daqueles poucos que o produziram ou que de alguma forma se emocionaram com este.

Como era a cena da dança em Sergipe na década de 80? Quem lembra? Onde vamos pesquisar? Quem escreveu uma linha sobre a produção dos grupos? Onde está esta memória? Como podemos saber qual foi a impressão do público sobre esta produção? Como poderemos contar esta história?Quando surgirem outras Carolinas Naturesas que quixotescamente tentarem recriar a historia da produção de dança cênica em Aracaju a partir de 2010, já temos algo escrito e publicado, 'AMÉM' entramos para a história!

Faço minha monografia sobre um pintor sergipano, a única coisa que encontrei escrita sobre o mesmo foi um parágrafo no site da Sociedade Semear. A partir desse parágrafo tracei as diretrizes de meu trabalho, imagina se eu tivesse que deduzir o que escrever sobre o cidadão se não existisse um único ponto de referência?

Gente, acordem, estamos reverberando, a IV Semana de Dança foi um sucesso tão grande que rendeu críticas, que duas pessoas que nem sequer dançam, perderam seus preciosos tempos para se debruçar á critica de alguns dos trabalhos. Como foram as outras edições da Semana de dança? Onde eu posso pesquisar? Há algo escrito? Foi bom? Foi mal? Onde encontro esse material? NADA! NENHUMA PALAVRA, até então éramos invisíveis, e agora?  Agora saímos na chuva e nos molhamos! Podemos escorregar, cair, gripar ou simplesmente tomar banho de chuva que é MUITO BOM! Só não da pra querer sair sequinho de um temporal.

Tocando em outra questão, lembram o que significa vanguarda? Vem do francês Avant Gard, ou seja, são aqueles que estão à frente da guarda, aqueles que quando forem para o front serão os primeiros a serem feridos e alvejados. As pedras atingirão primeiro neles. Quem são os vanguardistas? Os mais corajosos!

A história da arte foi feita por pessoas que ousaram desagradar, quando Nijinsk dançou “Sagração da Primavera” e “Prelúdio de um Fauno”, foi vaiado ferozmente, os críticos escreveram atrocidades sobre a obra, e o que a história nos diz?  Depois dessas obras o balé já não era mais clássico, algo tinha mudado, a história já havia sido feita, e por quê?  Porque incomodou ao ponto de escreverem não duas, mas várias linhas sobre o seu trabalho, porque o trabalho reverberou e ate hoje em 2010 é impossível estudar a historia da dança sem passar por essas obras que tanto incomodaram que foram devastadas pelos críticos.

Onde podemos pesquisar sobre a reação que esses trabalhos causaram ao público? No que foi escrito pelos críticos. Eram todos qualificados? Quem sabe! Mas é por causa deles que podemos traçar uma parte da história, agora imagina só se ninguém tivesse escrito nada? Um marco da historia da dança teria passado absolutamente despercebido. É assim em toda a historia da arte, pra mudar é necessário incomodar, e se ninguém falar nada, bem ou mal, nos manteremos na invisibilidade. E por isso eu clamo: Falem mal, mas falem de mim!

* Maíra Magno é bailarina,professora de Danças Árabes e uma das organizadoras da IV Semana Sergipana de Dança.