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Mostrando postagens com marcador Teatro. Mostrar todas as postagens
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sábado, 2 de abril de 2011

Dê seus pulos !



Por Leandro Santolli
Foto : Amigos Elyte

A Cabriola Cia. De Teatro , estréia sua 6º produção , com o espetáculo ‘O pulo do gato’ , trilogia de comédias que iniciou com ‘ o que é que há com nós dois’ e continuou com ‘ o que é que há com nós dois , mais uma vez ‘ com foco em conquista e convivência respectivamente . Ultimo espetáculo desta trilogia aborda a separação ou possível recomeço , partindo da visão masculina .

Não seria ofensivo dizer que O pulo do gato , é um samba do crioulo doido, para não dizer caos. Existe uma boa idéia, infelizmente expressa em ações que não se completam a razão de existir da peça. Talvez esmiuçando a peça seja mais fácil seu entendimento, ao contrário é difícil dar um parecer sobre o que é exposto ao publico.

O ator, diretor e autor do espetáculo entra em cena numa discussão, onde de imediato já fica notória a falta de ação,visto ser um momento caloroso da ‘briga’, e a dicção demasiadamente marcada, com cada virgula no seu lugar, uma verdadeira sabatina. Entre um texto e outro , o espetáculo vai sendo conduzido por canções entoadas pelo ator, além algumas coreografias desnecessárias . As canções chatas e mal executadas começam a ser um tormento , a cada vez que o ator indiciava cantar, a platéia já se remexia na cadeira, olhava para o relógio e como se não bastasse , uma nuvem de gelo seco, muito gelo seco, muito ... (faz sentido?) É totalmente aceitável que o ator queira dançar, sapatear, chorar ... desde que este tenha domínio do que se faz ,no caso em questão falta um amadurecimento vocal , e isto transforma o que poderia ser um ‘achado’ do espetáculo num momento de terror.

O texto tende a ser machista , e isto é aceitável , estranho seria imaginar que o mesmo fosse defender um ponto de vista bem ‘mocinha’. Contudo o texto na tentativa de soar engraçado e agradável, vai caindo para piadas velhas, sem graça alguma e que converge quase que em sua totalidade para sexo e afins , o ator então quebra a 4º parede e fica sempre neste jogo de ‘ vou contar uma piada , riam ‘. Um show de variedade humorística, ou seja, ser uma descarga de piadas, paródias musicais e situações de humor escrachado com o objetivo de gerar um acontecimento de entretenimento “popular”. De modo que as situações e o desenrolar de trama no espetáculo tornam-se apenas pretexto para o desbunde. A situação serve ao humor e não o contrário. Isto é, o desenrolar da peça é reduzido a uma justificativa para o show cômico-trash .

Celso Júnior em uma determinada crítica em seu blog (http://tinyurl.com/ya9fweo) cita : “Surpreendentemente, o público respondia às gargalhadas. Talvez por ignorar as possibilidades perdidas que o texto oferece, se contentando com o humor raso .Mas não se pode esperar muito do público que foi educado - e mal educado - para isto .” Eu diria ainda que o publico muitas vezes ri, pra fazer valer o valor do ingresso , na pior das hipóteses.

A iluminação trava uma batalha com o ator, compromete o espetáculo, não cria , não faz as vezes de pintar o espetáculo, ou de trazer algo de bonito ao mesmo, o mesmo refere-se a trilha sonora mal resolvida e por vezes inaudível pela baixa qualidade, bem como num off , onde o personagem fala ao tefefone com um suposto amigo ‘Carlão’ , o áudio é tão ruim que a voz é facilmente confundida com uma voz feminina , podia ser descartado inclusive . Vale salientar ainda que as pausas são bem rápidas, o que nos faz entender que o personagem pensa pouco, ou não pensa nada.

Figurino casual, mas aparentemente não existe um estudo sobre ele, ou se existe é necessário uma análise mais profunda, afinal o ator desde inicio do espetáculo até o final , tira e põe o blazer 7 vezes , é chato, é cansativo, é angustiante. Se existe uma mala em cena, entende-se que o ator tem onde guardar o tal pertence , porém a mala é usada no início da peça para pegar algum objeto (se não me falha a memória , o blazer), e depois disso apenas para pegar um cigarro . (Eu guardo o cigarro no bolso, na mala é trabalho demais para mim ) A mala fica sem uso durante quase todo o espetáculo , e até nas saídas repentinas em que o personagem diz ir embora a mala fica, inclusive o espetáculo termina , o personagem vai embora e a mala continua lá ... imponente, linda, atuante ! podia estar na coxia, em casa, ou no ponto de venda, mas preferiu estar lá.

O espetáculo com duração de aprox. de 50 minutos termina com mais musica, mais coreografia, mais gelo seco e como se ainda faltasse algo, ganhamos uma chuva de bolinhas de sabão (oi?)

“se você não está contra eles, você está colaborando com eles”

Talvez esta seja a sina de todo artista, ontem e hoje.

O espetáculo foi assistido no dia 25 de março em Alagoinhas-BA , no Centro de Cultura e Arte | Fez parte da programação do Festival Arte para todos , do qual a Blog Síncope participou como convidado

O poder esmiuçado em gestos



Por Leandro Santolli
Foto : Alex Hermes

Ato - Grupo Magiluth / Recife -PE

O chão é quente, mas quem tem poder tem bons sapatos. Desde esse início já está dito claramente à platéia, por meio dos sapatos e suas solas, que há ali uma hierarquia naturalmente respeitada, naturalmente mantida. Desde esse início já não se usam palavras para dizer esse tipo de coisa.

Outros signos óbvios aparecem: a coleira, o plano mais alto que obriga o subordinado a olhar para cima e, conseqüentemente, a sentir-se menor, os chiliques de quem tem o poder, o distanciamento forçado, a possibilidade de sentar-se, o tamanho das malas.

É a partir deste panorama inicial, construído por quatro personagens clownescos, que o grupo nos convida a ir mais longe nesta experiência bem humorada, que tem uma forma de expressão leve, mas é crítica e profunda nas contradições que releva.

Quando os 4 personagens começam a se relacionar entre si, desenham-se, a meu ver, três sutilezas da construção e manutenção do autoritarismo e da exploração. A primeira é a característica do poder autoritário de se transferir de “escalão” para “escalão”, aproveitando-se da mágoa misturada ao orgulho e à ambição. Assim, se alguém grita comigo de cima, grito eu com quem por azar esteja logo abaixo e desse modo me sinto aliviado transferindo a humilhação. E, claro, me sinto poderoso, mesmo que as ordens professadas não tenham partido de uma demanda ou de um desejo meu. O prazer ou obrigação do cumprimento de ordens superiores traduzido na sensação de eficiência ou de “dever cumprido” aliado ao deleite ou status de dar ordens, ainda que não me tragam qualquer benefício, fazem a roda do poder girar sem que os oprimidos se sintam verdadeiramente incomodados, uma vez que é possível descontar a opressão oprimindo.

O segundo e ainda mais cruel pormenor de um sistema que se sustenta na exploração está no fato de que o oprimido é quem cria/ produz os bens que dão ao opressor seu bem-estar, seu destaque social e suas vantagens diante dos demais. Ao que cria/ produz resta a função de continuar atribuindo valor ao que foi produzido, à medida em que deseja aquilo para si. Já dizia aquele barbudo que não é nem Deus, nem Papai Noel, nem o mago Merlin nem Paulo Freire… alienação do trabalho e da produção.

Finalmente, outra tática discreta e eficaz de manutenção das posições no tabuleiro é a desmobilização: quem está no poder se entende e se articula muito bem, pois tem objetivos claros e simples em comum (não está dito na peça mas eu me arrisco a dizer que no caso da nossa sociedade esse objetivo comum simples e claro é o lucro), enquanto quem é explorado não se entende, caminha para sentidos opostos e muitas vezes reproduz a estrutura de poder com seu colega de exploração. E, quando, por milagre divino (ou do outro barbudo mexendo seus pauzinhos lá do outro plano), os explorados se aproximam e esboçam uma união, os poderosos logo conseguem reestabelecer a competição entre eles, arma infalível para colocar um contra o outro e afastar qualquer perigo de mudança.

Tudo isso o grupo coloca em cena, sem precisar – como eu precisei – desse monte de palavras. As metáforas que levam a essas conclusões são jogos simples entre os quatro personagens, sempre em torno de bens que representam qualquer tipo de propriedade que tenhamos e de interações que representam nossas tentativas de união ou mesmo de proximidade carinhosa. Alguns ruídos, alguns objetos muito bobos, algumas malas, garrafas de água (cachaça?), sapatos e um jornal. E, pronto, a estrutura se revela. E, ainda que contraditoriamente a tese do grupo seja extremamente pessimista com relação à manutenção da estrutura de poder, ao revelar seu funcionamento, os artistas começam a botar lenha na fogueira em que ela poderá – quem sabe um dia – queimar e, enfim, transformar-se.

4 solas de sapato diferentes

terça-feira, 29 de março de 2011

Descortinando o Véu


Por Leandro Santolli
Foto : Alessandra Nohvais


Há pelo menos um século o estatuto da obra de arte vem sendo vertiginosamente modificado e, ao que parece, se alargado ao encontro dos territórios mais banais, diversos e controvertidos (alguns, inclusive, nada estéticos) da vida cotidiana. Tudo indica que a arte, como nenhum outro campo da cultura, constitui uma espécie de buraco negro em incessante expansão, sendo capaz de se alimentar de tudo aquilo que, ao longo de sua labiríntica trajetória, tenta negá-la ou destruí-la. Basta recorrer a exemplos implacáveis como os de Antonin Artaud, John Cage, Alan Kaprow, Andy Warhol (todos hoje, venerados) e, claro, o bom e velho Marcel Duchamp, cujo gesto meramente chistoso de inscrever um simples urinol de porcelana na exposição da Society of Independent Artists, de Nova Iorque, em 1917, o rende até hoje o título de gênio.

Um dos maiores legados deixados pelas vanguardas artísticas e, especialmente, pelas experiências performativas que começam a se proliferar por todo o mundo a partir dos anos 60, foi a dessacralização do objeto de arte. Esse movimento, mais ou menos organizado, no Brasil, contou com o reforço do neoconcretismo e os seus não-objetos, bem como de diversos artistas performáticos e de um certo teatro disposto a quebrar a distância entre os corpos e o fio racionalista. Desde então, o degelo desta aura protetora da obra de arte, lentamente, vem deixando o público cada vez mais à vontade para tocar, trocar, experimentar, inter-agir. O artista, com isso, passa a habitar um outro lugar, acessível em pleno voo, deixando de ser aquele gênio da razão transcendental, ao qual só devemos aplausos, no final, para não atrapalhar.

Entretanto, nesse contexto de densa ressignificação da obra de arte e, especificamente, do teatro (já apelidado de “pós-dramático”), ainda se espera, em geral, de um ator em cima do palco, que nos conte uma história inteligível em sua totalidade, previamente escrita, de preferência tendo um final memorável; e que faça isso interpretando um ou mais personagens que, claro, defiram visivelmente de si, e cujas indagações não devem ser respondidas (ao menos não em voz alta!) por nós, espectadores. Véu , uma poética do só , com texto e direção de Luiz Antônio Junior , é a materialização de uma verdadeira obra de arte com todos os ingredientes fundamentais expostos. O espetáculo nos remete a uma reflexão do universo feminino, partindo da violência contra a mulher , seja sexual, física, moral, psicológica, como uma colcha de retalhos, onde o ator-criador vai costurando personagens, situações fictícias ou não , musica e informações, e o faz de maneira singular. A narrativa que traz a tona uma realidade velada nos direciona a uma reflexão profunda sobre a mulher ‘vítima e culpada’, mulheres outrora escondidas pelo medo, pela vergonha, pelo desamor, e como o próprio diz ‘ escondidas no véu da vergonha’.

Olhar um ator em cena é ver suas máscaras e também o homem ocultado pela personagem. E Luiz Antonio com seu coração e suas máscaras se impõe em cena, mostrando que para estar na vida é preciso viver. Véu não é uma criação genesíaca. Trata-se de um espetáculo que faz parte de uma tradição de arte contemporânea que põe os explicadores (exegetas, como gostam de dizer na academia) em desordem e expulsa sumariamente os juízes de carteirinha. Luiz sente esse trabalho em diversos níveis de composição de atuação, as linhas entre verdade/mentira e ator/personagem são mínimas. Nesse campo, dialoga inclusive com o cinema de Eduardo Coutinho, onde a realidade e a ficção se misturam e se confundem, é notório e intensifica um suposto desejo em 'experimentar no teatro'. Véu parece ainda mixar gêneros diferentes, aproximando a estrutura de um monólogo a um reality show interativo, em que o público participa, e é estimulado, desde o início. Não se trata de uma exortação agressiva, e CHATA, como muitos dos espetáculos da década de 1960 e de 1970 que ainda fazem eco em algumas produções artísticas contemporâneas. O público não se sente constrangido pelo, performer/ator que se encontra em cena. Aliás, essa experiência direta com o público é um dos pontos altos do espetáculo, o qual foge a rótulos classificatórios (“gênero nenhum me pega mais”, já dizia Clarice).

É um trabalho que baseia experiência teatral numa ambiência particular. E Luiz em meio a este turbilhão de pensamentos, possibilidades, reflexões, continua lá organicamente na cena, faz de si mesmo uma obra de arte; mostra-se humanamente falho e por isso encantadoramente uma obra prima.

O espetáculo foi assistido no dia 26 de março em Alagoinhas-BA , no Centro de Cultura e Arte | Fez parte da programação do Festival Arte para todos , do qual a Blog Síncope participou como convidado

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Espetáculo do entretenimento.


Por Leandro Santolli
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Está aí um gênero das artes cênicas que hoje em dia me causa certo espanto, pois sem nenhuma tradição em nossos palcos, pois passa longe do que foi o Teatro de Revista e, somente a custa de remontagens de espetáculos consagrados da “broadway”, o Teatro Musical vem ganhando a simpatia tanto da mídia, quanto da crítica. Da até a impressão de que esse gênero é algo superior à arte do teatro.

É claro que reconheço a complexidade e a dificuldade de se montar um espetáculo musical, pois reunir artistas que possuam potencial para cantar, dançar e ainda interpretar não é nada fácil. Encontrar alguém que só interprete já anda tão difícil! Sem contar que montar um espetáculo desse gênero não é para qualquer um. É coisa para peixe grande.

São espetáculos caros, que precisam de grandes patrocinadores, grandes cotas de incentivos, é muito dinheiro em jogo. Talvez esteja aí a razão de tanta popularidade de um gênero que ganhou notoriedade nos palcos de Nova York. O teatro musical feito hoje no Brasil, aliás, importado pelo Brasil é muito mais uma questão de negócio, do que uma questão de teatro.

Sem contar que os espetáculos desse gênero são elitistas, pois não é qualquer um que pode desembolsar a exorbitante quantia para pagar os seus ingressos. A mídia o tem sempre como a melhor opção de entretenimento entre todos os espetáculos teatrais em cartaz e o povo, ora, o povo!…

Se o teatro infantil é o patinho feio das artes cênicas, o teatro musical vem ganhando ares de filho perfeito. Como espetáculo, não há o que questionar. As trilhas são bem cuidadas, os figurinos, lindíssimos, os cenários, monstruosos, tudo para encantar os olhos do público. Pena que é tudo importado e sempre muito caro.

Longe de mim, desmerecer o gênero musical, o acho até bem interessante, quando levamos em conta a questão da formação do ator. Cantar, dançar, interpretar é tudo que um bom ator precisa aprender. Quisera todo ator ter a oportunidade de desfrutar da prática de tamanho exercício artístico. Quisera todo o povo ter a oportunidade de desfrutar do glamour de assistir a um espetáculo musical.

Esse Teatro musical pode até encantar os olhos, pode até conter elementos da arte do teatro, mas sempre será um gênero das artes cênicas, a arte do Teatro será sempre maior, mesmo que a mídia teime em vender um espetáculo musical como Teatro. Teatro é Sófocles, Eurípidis, Shakespeare, Nelson Rodrigues. Teatro musical é apenas um espetáculo de entretenimento.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Casamento perfeito ou quase isso

Por Michel Oliveira (texto e fotos)

É uma grande ousadia juntar o humor refinado de Machado de Assis, os conflitos psicológicos de Tchekhov e as crises contemporâneas de Eric Bogosian. Atrevimento que, nas mãos de qualquer um, podia ter custado ustar caro. Mas o diretor Celso Jr. conseguiu dominar a situação e junto com o Grupo Caixa Cênica deu formas ao espetáculo Felicidade Conjugal ou Quase Isso. O resultado de tal ousadia: Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, pré estréia no Teatro Tobias Barreto, curta temporada no Lourival Batista, apresentações confirmadas em Salvador. 

 Lição de Botânica

No palco Diane Veloso, Leila Magalhães, Frederico Lira, Denver Paraíso e Thiago Marques passeiam da comédia ao drama, falando de amor, dos devaneios, alegrias e tristezas da relação a dois. A abertura com ‘Lição de Botânica’, de Machado de Assis, é um grande acerto. A adaptação consegue fazer o público rir, com personagens carismáticos e situações jocosas, sem cair na graça vulgar. Diane Veloso se mostra madura, com um tempo de comédia bastante acertado. Denver Paraíso e Frederico Lira são o contraponto, regulam a cena com o ar ranzinza.

A Brincadeira

A releitura de ‘A Brincadeira’, de Tchekhov, tráz ao palco a densidade da literatura russa. Há uma ruptura. O riso não é mais o elemento principal. Ruptura necessária, pois mostra ao espectador que ele deve ficar atento. O espetáculo tem mais nuances do que possa aparentar. Leila Magalhães, que interpreta Nádenka, conseguiu captar a complexidade da personagem. Interpretação segura, compromissada, de quem sabe o que está fazendo. 

Um Tempero Mais Amargo

‘Um Tempero Mais Amargo’ de Eric Bogosian, contemporâneo em sua essência, talvez seja o menos compreendido. Muitos se prendem aos palavrões. Porém a cena é mais complexa. O diálogo revela problemas do tempo presente. A descoberta de uma traição de longa data as vésperas do casamento seria um ótimo melodrama, mas as sacadas de humor denotam o cinismo do homem contemporâneo, que aprendeu a rir de suas próprias desgraças. Thiago Marques com um personagem inicialmente passivo, mas que no final revela sua força, mostra um talento jovial a ser explorado.

Mas que seria de um bom roteiro e interpretações seguras sem um conceito estético? O aporte veio do teatro contemporâneo, onde menos é mais. A simplicidade proposital do figurino deixa claro que o foco está nos atores. A releitura das roupas de época, a discreta sensualidade da camisola de Nádenka, o vestido de noiva de Regina e o All Star nos pés se fundem de forma bastante acertada ao contexto proposto. Culpa de Roberto Laplane, também responsável pela maquiagem e pelo cenário, montado com objetos simples que lembram uma mudança no canto da casa. Objetos que podem ganhar outra configuração, como a cadeira que se transforma no trenó que desliza morro abaixo pela gelada montanha da imaginação. 

A iluminação marca de forma bastante discreta as passagens, completando o clima das cenas e ajudando na composição do cenário. A trilha sonora é fluida, aparece quando realmente é necessária. Mas como todo casamento tem algum problema, o cartaz do espetáculo parece está divorciado do resto. É muito posado e artificial. A arte final não é das melhores, com uma olhar nem tão apurado percebe-se que se trata de uma montagem.

É lamentável que a população aracajuana, que tanto reclama da inércia cultural, tenha deixado passar como outro qualquer, um espetáculo de forte senso estético, que apresentou uma proposta que ainda não havia sido experimentada pelas montagens feitas até então. Foram dez apresentações gratuitas, contado com a pré estréia. Quem cometeu o pecado de não ir que pague pra ver, quando o espetáculo voltar das temporadas fora do estado.

domingo, 11 de abril de 2010

A humanidade da arte

“Quem cria é Deus; a arte é invenção”, afirma Celso

Por Leandro Santolli
Foto: arquivo pessoal

O [Síncope] entrevista o ator e diretor Celso Jr., bacharel em Artes Cênicas, mestre em Letras e Lingüística e professor do Núcleo de Teatro da Universidade Federal de Sergipe. Nascido no Rio Grande do Sul, viajou pelo país, mudou-se para Salvador nos anos 80, onde iniciou sua carreira artística. É o diretor do espetáculo ‘Felicidade Conjugal ou Quase Isso’, um dos contemplados com o prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, em cartaz no teatro Lourival Batista até o dia 14.

[Síncope] - O que você acha da proposta do blog?

Celso Jr. - “É uma iniciativa muito importante . Só discordo de uma coisa, não acredito que haja uma ‘essência’, um ‘âmago’ em nenhuma forma de arte. É como se o artista possuísse uma chave para a compreensão de sua obra, e que a função da crítica fosse tentar descobrir e desvendá-la. Eu discordo disso, a arte é um caminho de mão dupla: quem a constrói tem tanto poder de desvendá-la quanto quem a frui, inclusive porque não há nada a ser desvendado. Essa ilusão de ‘profundidade’ reside no discurso que se constrói sobre a arte e não na arte em si”.

[S] - Os próprios artistas criam esta situação quando afirmam: “a essência do meu trabalho está em”; “consiste em”?

C. Jr. - “Alguns destroem isso. Veja Renée Magritte, a frase: ‘Isso não é um cachimbo’ numa pintura de um cachimbo é reveladora dessa quebra de discurso. Os artistas que dizem que sua obra possui uma essência estão se apegando, desesperadamente, a uma noção de que o artista é um ser superior ao resto da humanidade. A própria utilização da palavra ‘criar’, para se referir a uma obra de arte, remete a algo divino. Quem cria é Deus; a arte é invenção. Fiquei pasmo quando uma repórter daqui me perguntou: ‘Qual a mensagem da peça? ’. Minha peça não é telegrama. Não traz nenhuma mensagem!”

[S] - Esse tipo de pergunta ainda é comum?

C. Jr. - “Só se for aqui em Aracaju. Há muito tempo que não se pergunta esse tipo de coisa em outros lugares”

[S] - E o que você respondeu?

C. Jr. - “Que a peça não tem mensagem. Ela discute alguns temas, mas que não traz uma resposta. O público é quem vai ter de pensar e procurar respostas. Se quiser respostas...”.

[S] - Por aqui existe uma idéia aqui de que toda peça tem de ter algo a ser contado e que seja muito claro. A idéia é fazer o publico não pensar, não ter uma reflexão. Engolir qualquer coisa, de qualquer forma e achar bom, bacana, "legal". Qual seu posicionamento frente a essa situação?

C. Jr. - “Se eu puder ajudar a desconstruir isso, ótimo. Eu proponho uma arte que dialogue com o público. Eu vi artistas várias vezes indagando-se sobre ‘o que é uma criação’, quando na verdade a indagação deveria ser  ‘o que é a invenção artística’. Como já disse quem cria é Deus.

[S] - Então você discorda da frase "nós criamos este espetáculo”?

C. Jr. - “No discurso coloquial não tem problema. Mas eu prefiro: ‘Nós produzimos este espetáculo’”.

[S]- Atualmente, o campo da performance artística se transformou em terra de ninguém, salvo raras exceções. Funciona mais ou menos assim: se faz pouco sentido, acontece em local alternativo, não tem ensaio, nem efeito, trata-se de performance, e o pior: quem faz acredita piamente na ‘essência artística’. Performance te agrada ?

C. Jr. – “A performance me interessa muito, mas não no domínio do teatro. Teatro é teatro; performance é performance, tem mais ligações estéticas com as artes plásticas. . Mas não se pode jogar tudo no lixo, tem muita coisa interessante, no campo da performance”

sábado, 10 de abril de 2010

Uma pausa ao ordinário

Por Leandro Santolli e Michel Oliveira

Não existe arte sem crítica. Isso é um fato. O maior pressuposto da arte é o incomodo interior. Passamos de fase. A arte não tem mais a função de trazer conforto, pelo contrário. As produções contemporâneas têm se debruçado sobre o que traz rupturas. Procura novos caminhos e rumos.

Sempre se ouve queixas da inércia cultural de nosso estado. Situação que em partes é verdade, uma vez que as produções locais ainda são abafadas pelo que vem de fora. Mas, há produções locais de qualidade? Temos realmente artistas que mereçam destaque? Sergipe tem público consumidor para a arte? Só com um olhar crítico podemos encontras as repostas.

Seria uma ousadia dois estudantes, um de jornalismo e outro de teatro, criar um blog de crítica? A resposta fica para os leitores. A crítica é inerente à produção da cultura, uma vez que a própria arte é uma forma de crítica.

O [Síncope] é o único blog voltado para a crítica de arte no Estado de Sergipe, e isso  traz uma responsabilidade imensa. Queremos que os leitores encontrem por aqui uma crítica pautada, uma análise das produções artísticas, uma fuga do ordinário que tomou conta dos jornais e revistas.

O crítico contemporâneo precisa aceitar os desafios que as novas perspectivas da arte trouxeram. A idéia é justamente esta, dialogar com os criadores, compreender os processos, fragmentar até chegar à essência. Só assim evitaremos o risco de confundir uma vanguarda com modismo e enaltecer modismos como novidade.

Este espaço está aberto. Esperamos comentários, sugestões e, obviamente, críticas. Entre em contato através do email: blogsincope@gmail.com.