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domingo, 11 de abril de 2010

A humanidade da arte

“Quem cria é Deus; a arte é invenção”, afirma Celso

Por Leandro Santolli
Foto: arquivo pessoal

O [Síncope] entrevista o ator e diretor Celso Jr., bacharel em Artes Cênicas, mestre em Letras e Lingüística e professor do Núcleo de Teatro da Universidade Federal de Sergipe. Nascido no Rio Grande do Sul, viajou pelo país, mudou-se para Salvador nos anos 80, onde iniciou sua carreira artística. É o diretor do espetáculo ‘Felicidade Conjugal ou Quase Isso’, um dos contemplados com o prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, em cartaz no teatro Lourival Batista até o dia 14.

[Síncope] - O que você acha da proposta do blog?

Celso Jr. - “É uma iniciativa muito importante . Só discordo de uma coisa, não acredito que haja uma ‘essência’, um ‘âmago’ em nenhuma forma de arte. É como se o artista possuísse uma chave para a compreensão de sua obra, e que a função da crítica fosse tentar descobrir e desvendá-la. Eu discordo disso, a arte é um caminho de mão dupla: quem a constrói tem tanto poder de desvendá-la quanto quem a frui, inclusive porque não há nada a ser desvendado. Essa ilusão de ‘profundidade’ reside no discurso que se constrói sobre a arte e não na arte em si”.

[S] - Os próprios artistas criam esta situação quando afirmam: “a essência do meu trabalho está em”; “consiste em”?

C. Jr. - “Alguns destroem isso. Veja Renée Magritte, a frase: ‘Isso não é um cachimbo’ numa pintura de um cachimbo é reveladora dessa quebra de discurso. Os artistas que dizem que sua obra possui uma essência estão se apegando, desesperadamente, a uma noção de que o artista é um ser superior ao resto da humanidade. A própria utilização da palavra ‘criar’, para se referir a uma obra de arte, remete a algo divino. Quem cria é Deus; a arte é invenção. Fiquei pasmo quando uma repórter daqui me perguntou: ‘Qual a mensagem da peça? ’. Minha peça não é telegrama. Não traz nenhuma mensagem!”

[S] - Esse tipo de pergunta ainda é comum?

C. Jr. - “Só se for aqui em Aracaju. Há muito tempo que não se pergunta esse tipo de coisa em outros lugares”

[S] - E o que você respondeu?

C. Jr. - “Que a peça não tem mensagem. Ela discute alguns temas, mas que não traz uma resposta. O público é quem vai ter de pensar e procurar respostas. Se quiser respostas...”.

[S] - Por aqui existe uma idéia aqui de que toda peça tem de ter algo a ser contado e que seja muito claro. A idéia é fazer o publico não pensar, não ter uma reflexão. Engolir qualquer coisa, de qualquer forma e achar bom, bacana, "legal". Qual seu posicionamento frente a essa situação?

C. Jr. - “Se eu puder ajudar a desconstruir isso, ótimo. Eu proponho uma arte que dialogue com o público. Eu vi artistas várias vezes indagando-se sobre ‘o que é uma criação’, quando na verdade a indagação deveria ser  ‘o que é a invenção artística’. Como já disse quem cria é Deus.

[S] - Então você discorda da frase "nós criamos este espetáculo”?

C. Jr. - “No discurso coloquial não tem problema. Mas eu prefiro: ‘Nós produzimos este espetáculo’”.

[S]- Atualmente, o campo da performance artística se transformou em terra de ninguém, salvo raras exceções. Funciona mais ou menos assim: se faz pouco sentido, acontece em local alternativo, não tem ensaio, nem efeito, trata-se de performance, e o pior: quem faz acredita piamente na ‘essência artística’. Performance te agrada ?

C. Jr. – “A performance me interessa muito, mas não no domínio do teatro. Teatro é teatro; performance é performance, tem mais ligações estéticas com as artes plásticas. . Mas não se pode jogar tudo no lixo, tem muita coisa interessante, no campo da performance”

sábado, 10 de abril de 2010

Uma pausa ao ordinário

Por Leandro Santolli e Michel Oliveira

Não existe arte sem crítica. Isso é um fato. O maior pressuposto da arte é o incomodo interior. Passamos de fase. A arte não tem mais a função de trazer conforto, pelo contrário. As produções contemporâneas têm se debruçado sobre o que traz rupturas. Procura novos caminhos e rumos.

Sempre se ouve queixas da inércia cultural de nosso estado. Situação que em partes é verdade, uma vez que as produções locais ainda são abafadas pelo que vem de fora. Mas, há produções locais de qualidade? Temos realmente artistas que mereçam destaque? Sergipe tem público consumidor para a arte? Só com um olhar crítico podemos encontras as repostas.

Seria uma ousadia dois estudantes, um de jornalismo e outro de teatro, criar um blog de crítica? A resposta fica para os leitores. A crítica é inerente à produção da cultura, uma vez que a própria arte é uma forma de crítica.

O [Síncope] é o único blog voltado para a crítica de arte no Estado de Sergipe, e isso  traz uma responsabilidade imensa. Queremos que os leitores encontrem por aqui uma crítica pautada, uma análise das produções artísticas, uma fuga do ordinário que tomou conta dos jornais e revistas.

O crítico contemporâneo precisa aceitar os desafios que as novas perspectivas da arte trouxeram. A idéia é justamente esta, dialogar com os criadores, compreender os processos, fragmentar até chegar à essência. Só assim evitaremos o risco de confundir uma vanguarda com modismo e enaltecer modismos como novidade.

Este espaço está aberto. Esperamos comentários, sugestões e, obviamente, críticas. Entre em contato através do email: blogsincope@gmail.com.