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sábado, 2 de abril de 2011

Dê seus pulos !



Por Leandro Santolli
Foto : Amigos Elyte

A Cabriola Cia. De Teatro , estréia sua 6º produção , com o espetáculo ‘O pulo do gato’ , trilogia de comédias que iniciou com ‘ o que é que há com nós dois’ e continuou com ‘ o que é que há com nós dois , mais uma vez ‘ com foco em conquista e convivência respectivamente . Ultimo espetáculo desta trilogia aborda a separação ou possível recomeço , partindo da visão masculina .

Não seria ofensivo dizer que O pulo do gato , é um samba do crioulo doido, para não dizer caos. Existe uma boa idéia, infelizmente expressa em ações que não se completam a razão de existir da peça. Talvez esmiuçando a peça seja mais fácil seu entendimento, ao contrário é difícil dar um parecer sobre o que é exposto ao publico.

O ator, diretor e autor do espetáculo entra em cena numa discussão, onde de imediato já fica notória a falta de ação,visto ser um momento caloroso da ‘briga’, e a dicção demasiadamente marcada, com cada virgula no seu lugar, uma verdadeira sabatina. Entre um texto e outro , o espetáculo vai sendo conduzido por canções entoadas pelo ator, além algumas coreografias desnecessárias . As canções chatas e mal executadas começam a ser um tormento , a cada vez que o ator indiciava cantar, a platéia já se remexia na cadeira, olhava para o relógio e como se não bastasse , uma nuvem de gelo seco, muito gelo seco, muito ... (faz sentido?) É totalmente aceitável que o ator queira dançar, sapatear, chorar ... desde que este tenha domínio do que se faz ,no caso em questão falta um amadurecimento vocal , e isto transforma o que poderia ser um ‘achado’ do espetáculo num momento de terror.

O texto tende a ser machista , e isto é aceitável , estranho seria imaginar que o mesmo fosse defender um ponto de vista bem ‘mocinha’. Contudo o texto na tentativa de soar engraçado e agradável, vai caindo para piadas velhas, sem graça alguma e que converge quase que em sua totalidade para sexo e afins , o ator então quebra a 4º parede e fica sempre neste jogo de ‘ vou contar uma piada , riam ‘. Um show de variedade humorística, ou seja, ser uma descarga de piadas, paródias musicais e situações de humor escrachado com o objetivo de gerar um acontecimento de entretenimento “popular”. De modo que as situações e o desenrolar de trama no espetáculo tornam-se apenas pretexto para o desbunde. A situação serve ao humor e não o contrário. Isto é, o desenrolar da peça é reduzido a uma justificativa para o show cômico-trash .

Celso Júnior em uma determinada crítica em seu blog (http://tinyurl.com/ya9fweo) cita : “Surpreendentemente, o público respondia às gargalhadas. Talvez por ignorar as possibilidades perdidas que o texto oferece, se contentando com o humor raso .Mas não se pode esperar muito do público que foi educado - e mal educado - para isto .” Eu diria ainda que o publico muitas vezes ri, pra fazer valer o valor do ingresso , na pior das hipóteses.

A iluminação trava uma batalha com o ator, compromete o espetáculo, não cria , não faz as vezes de pintar o espetáculo, ou de trazer algo de bonito ao mesmo, o mesmo refere-se a trilha sonora mal resolvida e por vezes inaudível pela baixa qualidade, bem como num off , onde o personagem fala ao tefefone com um suposto amigo ‘Carlão’ , o áudio é tão ruim que a voz é facilmente confundida com uma voz feminina , podia ser descartado inclusive . Vale salientar ainda que as pausas são bem rápidas, o que nos faz entender que o personagem pensa pouco, ou não pensa nada.

Figurino casual, mas aparentemente não existe um estudo sobre ele, ou se existe é necessário uma análise mais profunda, afinal o ator desde inicio do espetáculo até o final , tira e põe o blazer 7 vezes , é chato, é cansativo, é angustiante. Se existe uma mala em cena, entende-se que o ator tem onde guardar o tal pertence , porém a mala é usada no início da peça para pegar algum objeto (se não me falha a memória , o blazer), e depois disso apenas para pegar um cigarro . (Eu guardo o cigarro no bolso, na mala é trabalho demais para mim ) A mala fica sem uso durante quase todo o espetáculo , e até nas saídas repentinas em que o personagem diz ir embora a mala fica, inclusive o espetáculo termina , o personagem vai embora e a mala continua lá ... imponente, linda, atuante ! podia estar na coxia, em casa, ou no ponto de venda, mas preferiu estar lá.

O espetáculo com duração de aprox. de 50 minutos termina com mais musica, mais coreografia, mais gelo seco e como se ainda faltasse algo, ganhamos uma chuva de bolinhas de sabão (oi?)

“se você não está contra eles, você está colaborando com eles”

Talvez esta seja a sina de todo artista, ontem e hoje.

O espetáculo foi assistido no dia 25 de março em Alagoinhas-BA , no Centro de Cultura e Arte | Fez parte da programação do Festival Arte para todos , do qual a Blog Síncope participou como convidado

O poder esmiuçado em gestos



Por Leandro Santolli
Foto : Alex Hermes

Ato - Grupo Magiluth / Recife -PE

O chão é quente, mas quem tem poder tem bons sapatos. Desde esse início já está dito claramente à platéia, por meio dos sapatos e suas solas, que há ali uma hierarquia naturalmente respeitada, naturalmente mantida. Desde esse início já não se usam palavras para dizer esse tipo de coisa.

Outros signos óbvios aparecem: a coleira, o plano mais alto que obriga o subordinado a olhar para cima e, conseqüentemente, a sentir-se menor, os chiliques de quem tem o poder, o distanciamento forçado, a possibilidade de sentar-se, o tamanho das malas.

É a partir deste panorama inicial, construído por quatro personagens clownescos, que o grupo nos convida a ir mais longe nesta experiência bem humorada, que tem uma forma de expressão leve, mas é crítica e profunda nas contradições que releva.

Quando os 4 personagens começam a se relacionar entre si, desenham-se, a meu ver, três sutilezas da construção e manutenção do autoritarismo e da exploração. A primeira é a característica do poder autoritário de se transferir de “escalão” para “escalão”, aproveitando-se da mágoa misturada ao orgulho e à ambição. Assim, se alguém grita comigo de cima, grito eu com quem por azar esteja logo abaixo e desse modo me sinto aliviado transferindo a humilhação. E, claro, me sinto poderoso, mesmo que as ordens professadas não tenham partido de uma demanda ou de um desejo meu. O prazer ou obrigação do cumprimento de ordens superiores traduzido na sensação de eficiência ou de “dever cumprido” aliado ao deleite ou status de dar ordens, ainda que não me tragam qualquer benefício, fazem a roda do poder girar sem que os oprimidos se sintam verdadeiramente incomodados, uma vez que é possível descontar a opressão oprimindo.

O segundo e ainda mais cruel pormenor de um sistema que se sustenta na exploração está no fato de que o oprimido é quem cria/ produz os bens que dão ao opressor seu bem-estar, seu destaque social e suas vantagens diante dos demais. Ao que cria/ produz resta a função de continuar atribuindo valor ao que foi produzido, à medida em que deseja aquilo para si. Já dizia aquele barbudo que não é nem Deus, nem Papai Noel, nem o mago Merlin nem Paulo Freire… alienação do trabalho e da produção.

Finalmente, outra tática discreta e eficaz de manutenção das posições no tabuleiro é a desmobilização: quem está no poder se entende e se articula muito bem, pois tem objetivos claros e simples em comum (não está dito na peça mas eu me arrisco a dizer que no caso da nossa sociedade esse objetivo comum simples e claro é o lucro), enquanto quem é explorado não se entende, caminha para sentidos opostos e muitas vezes reproduz a estrutura de poder com seu colega de exploração. E, quando, por milagre divino (ou do outro barbudo mexendo seus pauzinhos lá do outro plano), os explorados se aproximam e esboçam uma união, os poderosos logo conseguem reestabelecer a competição entre eles, arma infalível para colocar um contra o outro e afastar qualquer perigo de mudança.

Tudo isso o grupo coloca em cena, sem precisar – como eu precisei – desse monte de palavras. As metáforas que levam a essas conclusões são jogos simples entre os quatro personagens, sempre em torno de bens que representam qualquer tipo de propriedade que tenhamos e de interações que representam nossas tentativas de união ou mesmo de proximidade carinhosa. Alguns ruídos, alguns objetos muito bobos, algumas malas, garrafas de água (cachaça?), sapatos e um jornal. E, pronto, a estrutura se revela. E, ainda que contraditoriamente a tese do grupo seja extremamente pessimista com relação à manutenção da estrutura de poder, ao revelar seu funcionamento, os artistas começam a botar lenha na fogueira em que ela poderá – quem sabe um dia – queimar e, enfim, transformar-se.

4 solas de sapato diferentes

terça-feira, 29 de março de 2011

Descortinando o Véu


Por Leandro Santolli
Foto : Alessandra Nohvais


Há pelo menos um século o estatuto da obra de arte vem sendo vertiginosamente modificado e, ao que parece, se alargado ao encontro dos territórios mais banais, diversos e controvertidos (alguns, inclusive, nada estéticos) da vida cotidiana. Tudo indica que a arte, como nenhum outro campo da cultura, constitui uma espécie de buraco negro em incessante expansão, sendo capaz de se alimentar de tudo aquilo que, ao longo de sua labiríntica trajetória, tenta negá-la ou destruí-la. Basta recorrer a exemplos implacáveis como os de Antonin Artaud, John Cage, Alan Kaprow, Andy Warhol (todos hoje, venerados) e, claro, o bom e velho Marcel Duchamp, cujo gesto meramente chistoso de inscrever um simples urinol de porcelana na exposição da Society of Independent Artists, de Nova Iorque, em 1917, o rende até hoje o título de gênio.

Um dos maiores legados deixados pelas vanguardas artísticas e, especialmente, pelas experiências performativas que começam a se proliferar por todo o mundo a partir dos anos 60, foi a dessacralização do objeto de arte. Esse movimento, mais ou menos organizado, no Brasil, contou com o reforço do neoconcretismo e os seus não-objetos, bem como de diversos artistas performáticos e de um certo teatro disposto a quebrar a distância entre os corpos e o fio racionalista. Desde então, o degelo desta aura protetora da obra de arte, lentamente, vem deixando o público cada vez mais à vontade para tocar, trocar, experimentar, inter-agir. O artista, com isso, passa a habitar um outro lugar, acessível em pleno voo, deixando de ser aquele gênio da razão transcendental, ao qual só devemos aplausos, no final, para não atrapalhar.

Entretanto, nesse contexto de densa ressignificação da obra de arte e, especificamente, do teatro (já apelidado de “pós-dramático”), ainda se espera, em geral, de um ator em cima do palco, que nos conte uma história inteligível em sua totalidade, previamente escrita, de preferência tendo um final memorável; e que faça isso interpretando um ou mais personagens que, claro, defiram visivelmente de si, e cujas indagações não devem ser respondidas (ao menos não em voz alta!) por nós, espectadores. Véu , uma poética do só , com texto e direção de Luiz Antônio Junior , é a materialização de uma verdadeira obra de arte com todos os ingredientes fundamentais expostos. O espetáculo nos remete a uma reflexão do universo feminino, partindo da violência contra a mulher , seja sexual, física, moral, psicológica, como uma colcha de retalhos, onde o ator-criador vai costurando personagens, situações fictícias ou não , musica e informações, e o faz de maneira singular. A narrativa que traz a tona uma realidade velada nos direciona a uma reflexão profunda sobre a mulher ‘vítima e culpada’, mulheres outrora escondidas pelo medo, pela vergonha, pelo desamor, e como o próprio diz ‘ escondidas no véu da vergonha’.

Olhar um ator em cena é ver suas máscaras e também o homem ocultado pela personagem. E Luiz Antonio com seu coração e suas máscaras se impõe em cena, mostrando que para estar na vida é preciso viver. Véu não é uma criação genesíaca. Trata-se de um espetáculo que faz parte de uma tradição de arte contemporânea que põe os explicadores (exegetas, como gostam de dizer na academia) em desordem e expulsa sumariamente os juízes de carteirinha. Luiz sente esse trabalho em diversos níveis de composição de atuação, as linhas entre verdade/mentira e ator/personagem são mínimas. Nesse campo, dialoga inclusive com o cinema de Eduardo Coutinho, onde a realidade e a ficção se misturam e se confundem, é notório e intensifica um suposto desejo em 'experimentar no teatro'. Véu parece ainda mixar gêneros diferentes, aproximando a estrutura de um monólogo a um reality show interativo, em que o público participa, e é estimulado, desde o início. Não se trata de uma exortação agressiva, e CHATA, como muitos dos espetáculos da década de 1960 e de 1970 que ainda fazem eco em algumas produções artísticas contemporâneas. O público não se sente constrangido pelo, performer/ator que se encontra em cena. Aliás, essa experiência direta com o público é um dos pontos altos do espetáculo, o qual foge a rótulos classificatórios (“gênero nenhum me pega mais”, já dizia Clarice).

É um trabalho que baseia experiência teatral numa ambiência particular. E Luiz em meio a este turbilhão de pensamentos, possibilidades, reflexões, continua lá organicamente na cena, faz de si mesmo uma obra de arte; mostra-se humanamente falho e por isso encantadoramente uma obra prima.

O espetáculo foi assistido no dia 26 de março em Alagoinhas-BA , no Centro de Cultura e Arte | Fez parte da programação do Festival Arte para todos , do qual a Blog Síncope participou como convidado

terça-feira, 4 de maio de 2010

'Perfumático'



Por Leandro Santolli
Foto : Divulgação


Sabiamente um antigo comercial de TV dizia que a rotina do perfume é a lembrança; exatamente desta forma apresenta-se “Perfume” da Espaço Liso Companhia de Dança, com direção, concepção e coreografia de Ewerton Nunes. O espetáculo apresenta as relações amorosas através de movimentos cotidianos, com a interação das diferentes formas de arte. Questiona a prisão imposta pelo desejo e como as relações vão se desgastando com o tempo e se tornam um disfarce para uma desordem maior.

Aparentemente o espetáculo tenta abordar de maneira objetiva e direta o vazio dos relacionamentos e o quanto estes estão ligeiramente ligados ao perfume das lembranças, analisando o que isto provoca nos indivíduos positiva e negativamente, inclusive passando a sensação da desordem gerada pela falta generalizada de tempo para escutarmos uns aos outros, para aproximarmos nossas diferenças e as colocarmos em questão.

O espetáculo inicia com os bailarinos dispersos e imóveis no palco, criando uma áurea de tensão, que se desenrola posteriormente ao som da canção entoada pelo diretor artístico da  montagem sob os acordes de um violão. A presença cênica é embalada por um incipiente tecnica vocal, que com um pouco mais de treino pode ser resolvida.

O figurino que utiliza peças de uso cotidiano foi a escolha da companhia para o espetáculo. As trocas de roupa em cena já se tornaram característicos de suas  montagens, bem como a utilização  do vermelho e do branco, utilizadas na produção anterior: 'Laços'. Outra peculiaridade da Espaço Liso é uso de projeções , que em 'Laços' dialogava com o espetáculo, mas em Perfume  não, principalmente porque não é bem produzido, então não faria falta ao espetáculo . Os adereços cênicos são muito bem utilizados, toalha, violão, arara, poltrona, tudo se completa ao que é proposto.

O elenco de ‘Perfume’ não deixa a desejar, rico em qualidade técnica e bom entendimento do seu papel no contexto da narrativa, executam os movimentos coreográficos com segurança e naturalidade. As canções da trilha foram, ou parecem ter sido, compostas especialmente para o espetáculo, letras sábias, melodias bonitas, porém a união desta trilha com as coreografias sem exagero algum nos remete aos vídeos-clip da banda Feist ou Beirut, boas lembranças sem cheiro de perfume algum.

A  escolha da participação de “UBANDO” foi uma aquisição ousada , não cabe afirmar se inteligente ou não. Héloa (vocal) tem todos os méritos de uma artista em crescente crescimento, mas destoava do grupo, talvez por nervosismo, por insegurança. A junção destas diversas linguagens ainda é confusa por parte do publico, mas aveitável já que foi a forma mais ousada e usada pelo coreógrafo.

'Perfume'  mostra ainda os mais variados tipos de relacionamentos e seus conflitos, sejá de forma hétero ou homoerótica. Não podemos dizer que é algo relativamente novo, mas se ver as nádegas de um bailarino choca parte do publico, imagine-se que além do nú, temos um beijo gay, num dos pontos mais altos e mais bonitos do espetáculo, incomodando a alguns e enchendo os olhos de outros.

'Perfume' é o espetáculo da boa contradição: simples porém rico, exagerado entretanto íntimo, bem escrito e planejado, faz jus a expectativa gerada em torno de seu desenvolvimento.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Coletivo Insanidade


Por Leandro Santolli
Foto : Arquivo Leilinha Nascimento

Ultimamente a construção de espetáculos que usam o transtorno psiquiátrico como mote tem crescido assustadoramente, bem como os que falam de nordestino e afins, deste modo ou a Cia. sai do denominador comum ou tende a ser repetitivo e chulamente falando chato.

A Cia. Contempodança é ousada e abusada em seu espetáculo ‘Casulo’ que tem  a direção de Leilinha Nascimento  e nos remete a este universo inconsciente fruto de pesquisa e laboratório com o elenco,  onde praticamente inexistem coreografias, as que existem são executadas com tamanha técnica ou beleza, diante do contexto geral dançar ou não passa plenamente despercebido,  também não seria interessante caracterizar como teatro, mesmo vendo o elenco atuar e convencer em seus transtornos mentais.

Não necessariamente deve existir música e nem coreografia para se dançar, a Cia. Parte deste principio e lança ao publico um mix de experimentações que causam inquietudes e perturbações, mostrando com clareza o conceito do espetáculo, explorando a alienação mental e aproximando os  espectadores de um mundo visto por um outro olhar, um outro raciocínio lógico e outras relações afetivas.

O cenário composto pelas conchas acústica do TTB foi uma das grandes sacadas, bem como o uso do tecido acrobático compondo o espetáculo. A trilha assinada por Ton Toy cabe em cheio, e o próprio se faz entender como parte do processo criativo da Cia, a música é executada ao vivo, os mais variados sons dos instrumentos mais inesperados, o chão do procênio talvez seja o melhor exemplo disto, Sulanca também é uma acertada opção na composição da trilha, não poderia ser mais inteligente.

Sérgio Robson assina a iluminação e a direção artística e o faz com grandiosidade, sem grandes efeitos, sem grandes novidades, porque talvez nem coubesse, ainda assim é muito bem elaborada e rica, agrega o espetáculo e não é insano.

Se a finalidade do espetáculo era a de impressionar, o fez com grandeza, envolveu o publico, gerou opiniões controversas, causou frisson, gerou desconforto e agradou a muitos, ainda é possível notar que o nu em cena choca parte do publico sergipano, porém se formos ponderar o mesmo, ver as nádegas de um bailarino no teatro e ver as dançarinas de bandas de forró desta cidade em suas coreografias vulgares é só uma questão de ótica,  então qual o motivo de tanto alarde ?

‘Casulo’ é daqueles espetáculos que vale a pena assistir, principalmente por que nunca irá existir uma opinião formada sobre o que é apresentado, e se existir nunca será a mesma.

domingo, 2 de maio de 2010

Aula Show ?


Por Leandro Santolli
Foto : Arquivo Maíra Magno

Corpos sarados, penduricalhos brilhantes, sensualidade  e ousadia. Poderíamos entender que estes são ingredientes indispensáveis a um espetáculo de dança árabe, todavia tratando-se do comando de Maíra Magno estes ingredientes dão lugar a riqueza cultural de uma outra nação, com  moças vestidas literalmente dos pés a cabeça, com um toque se sensualidade sem parcela alguma de vulgaridade.

Raks el Shaabi - A Dança do Povo, resgata as danças folclóricas típicas de diversas regiões de cultura árabes, que nasceram no seio das manifestações sociais e culturais daquele povo.  O espetáculo tem um formato simples e de fácil entendimento, não defende um conceito, apenas instrui. Seria então uma aula de história? Pode ser visto desta forma, e não seria ofensa por assim dizer, uma vez que antecedendo cada coreografia é exibido um vídeo com informações sobre a dança folclórica que vem a seguir, tornando-o explicativo demais, mas longe de passar uma mensagem de que o público é leigo, mesmo sendo.

A companhia dirigida por Maíra Magno insiste em espetáculos que trazem o mote folclórico, e o fazem de maneira simples, objetiva e bonita. As bailarinas demonstram estar bem ensaiadas e seguras, e  por mais que a coreografia não seja executada da melhor maneira,  o fazem com maestria. Coreografias bem elaboradas e que de fato evidencia a cultura do povo árabe.

Existe riqueza nos detalhes de cada cena exibida, seja nos artesanatos que compõe o aparato cênico, seja nos sete cenários que se intercalam.  A direção artística não deixa a desejar em nada, não há ausência. Os figurinos são em sua totalidade bonitos e com bastante presença cênica, muito bem pensado, elaborado e executado. As bailarinas vestem-se por completo de cultura e riqueza folclórica.

Maíra Magno é a personificação da beleza quando está no palco. Quaisquer elogios seriam redundantes quando tratamos da maior e melhor bailarina de cultura árabe no estado. Só ela consegue prender o publico em suas coreografias com trilhas que chegam a 8 minutos de duração, já que estes são aproveitados ao extremo com sua técnica e sensualidade.

Não é fácil a construção de um espetáculo sobre a cultura árabe, e em Sergipe  ainda pior  por conta da falta de interesse das pessoas em conhecer , em apreciar , em entender, e isto não é pedir demais. Mas outras barreiras ainda podem ser apontadas como fator ponderante para a rejeição de parte do publico como o idioma árabe e a falta de  noção  geográfica e histórica do Oriente Médio. Contudo ‘Raks el Shaabi’ para os que entendem , gostam ou pelo menos tentam apreciar,exibe a importância do resgate cultural e o quanto é satisfatório em  pleno século 21 ainda assistir bailarinas dançando com passos milenares de épocas Bíblicas.

A aula show com direção de Maíra Magno é uma tentativa acertada de passar este conhecimento adiante, e não há nada de mais belo que ver um senhorzinho árabe chorar de saudade de sua terra e de seus antepassados (como eu vi acontecer)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Lata d'água na cabeça

Por Leandro Santolli

Retratar a vida das carregadoras de água do rio é mote do espetáculo ‘Estandarte’ da Cia. DançArt de Sergipe. A priori espera-se um espetáculo que retrate a luta dessas mulheres em suas comunidades e afins, que explore seu gestual, cantos, etc. Mas a falta de clareza na construção do espetáculo impossibilita este entendimento.

O espetáculo começa visualmente muito bem, com a diversidade de perfis femininos retratados no palco, as lavadeiras, a carregadora de água, a religiosa e por que não dizer “santa”. As bailarinas sentem e transmitem estes personagens com muita inteligência nos dando a idéia de um espetáculo com bastante potencial, principalmente por conta da trilha que dialoga com a idéia exposta. Porém talvez por falta de direcionamento o espetáculo cai num marasmo, e isto se deve inclusive pela falta de atenção aos detalhes e o quanto estes fazem a diferença no palco.

Coreograficamente não é rico, por hora falta um entendimento dos bailarinos, principalmente por que na tentativa de muito representar, a canastrice vem à tona. Falta um direcionamento artístico. O elenco tem bastante presença cênica, mas não convence em suas ações, não podemos culpá-los por isso, e é claro que uma direção, um olhar crítico de fora do grupo faria bastante diferença.

O figurino assinado pelo Atelier Mundo da Lua é bonito, mas bem longe disto lavadeiras não usariam roupas tão brancas, poderia passar despercebido mas estamos tratando de um conceito definido e defendido pela Cia em sua pesquisa. Na segunda parte do espetáculo a saia branca é trocada por outra nas tonalidades de dourado e vermelho, nos fazendo desacreditar ainda mais no que está sendo proposto.

O desenho do figurino não é ruim, mas não cabe a proposta de “encenação”. Assim também é o macacão collant pérola usado pelo bailarino, fugindo e destoando completamente de todo o grupo e é muito difícil encontrar um significado coerente para o mesmo.

O cenário é simples, com tecidos de chita, o uso ou não do mesmo teria o mesmo efeito, e os adereços de cena poderiam também fazer jus ao que é proposto, afinal lavadeiras lavam roupas, não somente tecidos. Além das latas, supostamente d’água, estarem leves ao extremo. Claro que isto embeleza a cena, mas se existe uma pesquisa por traz, automaticamente tudo deve ser pensado e questionado.

A trilha poderia ser bem mais estudada, e não é difícil criar uma trilha para um espetáculo com esta concepção. Mônica Salmaso, Denize Aragão, Léo Moraes, Elza Soares, Radamés Gantalli, Victor Assis Brasil compõe a escolha da Cia. Por vezes acertam na escolha, mas o uso de muitas músicas de MPB como Maria Rita faz com que o espetáculo caia no tédio, talvez músicas certas para o conceito de espetáculo errado.

O que dizer de Fascinação para uma cena de lavadeiras? Difícil encontrar algum sentido, mas por sorte Elza Soares nos salva deste momento. Se Renata Rosa estivesse na trilha, ou até mesmo as cantoras da Mussuca de Laranjeiras, certamente esta seria bem mais rica, mas vale ressaltar que o fade de uma canção para outra foi muito bem editado, imperceptível até.

A iluminação do espetáculo assinada por Henrique é na sua totalidade muito boa, é o que o espetáculo tem de melhor, e ganha muito por isto, é notório que o iluminador entendeu o mote do trabalho e executou de maneira formidável.

O ponto mais alto do espetáculo é a cena final, as lavadeiras entoando seus cânticos enriquecem o trabalho, e a presença cênica dos bailarinos vem à tona. O final do espetáculo de fato emociona e convence, é muito estruturado e inteligente, fica nítido que o tal estandarte é a lata d’água. O complicado é entender se o estandarte neste caso está associado a um troféu que poderia ser exibido com orgulho.

Entre o aceno e o aperto de mão


Por Michel Oliveira (texto e fotos)

Um figurino que utiliza uma tonalidade próxima a da pele simula uma espécie de nudez. Assim quem está na platéia faz suas primeiras leituras: espera algo tátil, um contato mais próximo, uma sensação de intimidade. Essa foi a estratégia utilizada pelo Grupo Rosa Negra na montagem do espetáculo ‘Gesto’, apresentado na VI Semana Sergipana de Dança.

O vestido cor de pele é bem resolvido, fluido, não atrapalha os movimentos. Mas não é apenas o figurino que compõe um espetáculo. O cenário é um dos elementos que mais chamam a atenção. É bastante simples: estruturas de madeira sustentam cortinas da mesma cor das roupas, a disposição desses elementos no palco é acertada. Para quebrar a monotonia do bege, outras três armações semelhantes são trazidas a cena durante a apresentação, só que sustentando cortinas coloridas. Contas plásticas e correntes de metal descem em cascata pelos suportes, acrescentando brilho ao cenário.

O resultado é interessante: cortinas atrás da grande cortina do palco. Seria metalinguagem ou insinuação da proposta mimética da apresentação? O cenário é utilizado na coreografia, não é um elemento estático, afinal estamos falando de dança não é mesmo?

Essas cortinas estão bem distribuídas no palco, a diagonal formada por elas, em uma das partes da apresentação, é bem executada. Mas poderiam ter sido utilizadas de forma mais criativa, utilizando a semi-transparência do tecido para criar um clima menos explícito, já que a luz não era pontual.


Mas o que poderia ter sido bem amarrado se perde muito devido à trilha sonora. A edição deixou lacunas, há momento “em branco”, que prejudicam a coreografia. Não há uma gradação, as músicas passam como um cd de retalhos. Não há unidade. O fato de algumas músicas serem cantadas prejudica ainda mais, uma vez que a proposta era ressaltar o gesto. A fala, ainda que em outro idioma, chama mais a atenção que o movimento. Não é fácil expressar conceitos através de uma coreografia, então, tudo que possa desviar a atenção do foco principal deve ser evitado. Talvez essa deficiência sonora tenha prejudicado a sincronia de  alguns movimentos.

Apesar desse problema com a trilha, a coreografia tem momentos bons, que mostram a capacidade técnica e o preparo das bailarinas: giros bem executados, utilização de novos eixos de sustentação para o corpo e a variação dos movimentos, inclusive com mudanças de direção.

‘Gesto’ tem momentos, e elementos de destaque, mas ainda é necessário ajustes. O nome do espetáculo está de certa forma descolado, uma vez que não há uma representação mímica. O gesto evoca uma encenação, uma representação mais teatral. É difícil apreender o conceito utilizado para montagem, horas confuso como um aceno, horas firme como um aperto de mão.

domingo, 18 de abril de 2010

Direito ou avesso?


Por Michel Oliveira
Foto: Fábio Pamplona

Não se pode dizer que a Cubos Companhia de Dança amadureceu com o espetáculo ‘Reverso’. A companhia já estava madura desde as montagens anteriores. Os cinco bailarinos se multiplicam no espetáculo ‘Multipleto’. O figurino é etéreo, leve. A trilha é cativante e a variedade dos movimentos mostra o preparo de Rodolpho Sandes, Isabele Ribeiro, Julia Delmondes, July Ellen Lázaro e Viviane Gonzaga. E se a companhia é formada por cubos encontraram um excelente encaixe, a sintonia é nítida.

Mas em ‘Reverso’ a história é outra. Procura nuances que muitas vezes passam despercebidas, apesar de serem explícitas. São as lavadeiras no rio, o assuar de nariz, a ‘sibiteza’ e a ‘munganga’. A vida e a morte em contínua coreografia. Um Nordeste de dramas e alegrias. De um povo que sabe chorar, mas que também sabe fazer festa.  De namoricos na janela. Cortejos e procissões. Som de pífano, de maracatu, de pisada de pé. E como não podia faltar: água.

O figurino, assinado por Altair Santo, ganha fluidez com a precisão do corte e com o uso de forros leves, como tules coloridos. As cores são neutras, preto, branco e cru, com exceção do figurino vermelho, feito de malha trabalhada com textura de fitas de cetim. Ruptura necessária para evitar o previsível.

No fundo do palco uma cascata brilhante desce do teto até o chão. Uma cachoeira de anéis de garrafa pet, abuso da cenografia que enche os olhos. Estrelas do mesmo material se acendem com um foco de luz. A iluminação é precisa, focos em pontos específicos do palco. Em outros momentos feixes de luz são projetados, nunca revelando o todo. Há sempre uma penumbra envolvendo os movimentos. A trilha sonora é um passeio pelo repertório popular, de um nordeste que se expande além das fronteiras.

O espetáculo pretende fazer uma desconstrução do Nordeste, mostrar seu avesso. Mas o que ele consegue, e de forma muito acertada, é retratar. Um retrato coreografado de jeitos de ser. Sem caricaturas, nem estereótipos. A pretensão não é fazer um tratado sobre o Nordeste, mas mostrar um olhar, um recorte. Direito ou avesso? ‘Reverso’.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Casamento perfeito ou quase isso

Por Michel Oliveira (texto e fotos)

É uma grande ousadia juntar o humor refinado de Machado de Assis, os conflitos psicológicos de Tchekhov e as crises contemporâneas de Eric Bogosian. Atrevimento que, nas mãos de qualquer um, podia ter custado ustar caro. Mas o diretor Celso Jr. conseguiu dominar a situação e junto com o Grupo Caixa Cênica deu formas ao espetáculo Felicidade Conjugal ou Quase Isso. O resultado de tal ousadia: Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, pré estréia no Teatro Tobias Barreto, curta temporada no Lourival Batista, apresentações confirmadas em Salvador. 

 Lição de Botânica

No palco Diane Veloso, Leila Magalhães, Frederico Lira, Denver Paraíso e Thiago Marques passeiam da comédia ao drama, falando de amor, dos devaneios, alegrias e tristezas da relação a dois. A abertura com ‘Lição de Botânica’, de Machado de Assis, é um grande acerto. A adaptação consegue fazer o público rir, com personagens carismáticos e situações jocosas, sem cair na graça vulgar. Diane Veloso se mostra madura, com um tempo de comédia bastante acertado. Denver Paraíso e Frederico Lira são o contraponto, regulam a cena com o ar ranzinza.

A Brincadeira

A releitura de ‘A Brincadeira’, de Tchekhov, tráz ao palco a densidade da literatura russa. Há uma ruptura. O riso não é mais o elemento principal. Ruptura necessária, pois mostra ao espectador que ele deve ficar atento. O espetáculo tem mais nuances do que possa aparentar. Leila Magalhães, que interpreta Nádenka, conseguiu captar a complexidade da personagem. Interpretação segura, compromissada, de quem sabe o que está fazendo. 

Um Tempero Mais Amargo

‘Um Tempero Mais Amargo’ de Eric Bogosian, contemporâneo em sua essência, talvez seja o menos compreendido. Muitos se prendem aos palavrões. Porém a cena é mais complexa. O diálogo revela problemas do tempo presente. A descoberta de uma traição de longa data as vésperas do casamento seria um ótimo melodrama, mas as sacadas de humor denotam o cinismo do homem contemporâneo, que aprendeu a rir de suas próprias desgraças. Thiago Marques com um personagem inicialmente passivo, mas que no final revela sua força, mostra um talento jovial a ser explorado.

Mas que seria de um bom roteiro e interpretações seguras sem um conceito estético? O aporte veio do teatro contemporâneo, onde menos é mais. A simplicidade proposital do figurino deixa claro que o foco está nos atores. A releitura das roupas de época, a discreta sensualidade da camisola de Nádenka, o vestido de noiva de Regina e o All Star nos pés se fundem de forma bastante acertada ao contexto proposto. Culpa de Roberto Laplane, também responsável pela maquiagem e pelo cenário, montado com objetos simples que lembram uma mudança no canto da casa. Objetos que podem ganhar outra configuração, como a cadeira que se transforma no trenó que desliza morro abaixo pela gelada montanha da imaginação. 

A iluminação marca de forma bastante discreta as passagens, completando o clima das cenas e ajudando na composição do cenário. A trilha sonora é fluida, aparece quando realmente é necessária. Mas como todo casamento tem algum problema, o cartaz do espetáculo parece está divorciado do resto. É muito posado e artificial. A arte final não é das melhores, com uma olhar nem tão apurado percebe-se que se trata de uma montagem.

É lamentável que a população aracajuana, que tanto reclama da inércia cultural, tenha deixado passar como outro qualquer, um espetáculo de forte senso estético, que apresentou uma proposta que ainda não havia sido experimentada pelas montagens feitas até então. Foram dez apresentações gratuitas, contado com a pré estréia. Quem cometeu o pecado de não ir que pague pra ver, quando o espetáculo voltar das temporadas fora do estado.