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quinta-feira, 6 de maio de 2010

‘Perfume’ entra em cartaz no Lourival Batista


Nos dias 6, 13 e 28 de maio estará em cartaz no Teatro Lourival Batista o espetáculo ‘Perfume’, montagem da Companhia de Dança Espaço Liso. As apresentações iniciam às 20h30. Os ingressos podem ser adquiridos por R$ 15,00 (inteira) e R$7,00 (meia).

Baseado na estética da dança contemporânea, com alguns elementos teatrais , “Perfume" tem sua concepção na conflituosa relação entre amores e lembranças, que vêm à tona em fluxos da memória ativados pelas fragrâncias. O espetáculo é provocativo, apresenta sensualidade e lirismo através das linguagens do audiovisual, da música, do teatro e da literatura. Durante o espetáculo a platéia poderá sentir diferentes aromas, ativando as lembranças individuais evocadas pelo olfato. 

Elenco: André Bonfim, Raquel Leão, Dayanne Alves, Fernanda Matos , Luanda Ribeiro, Amelhinha Sá e Ewertton Nunes.
Músicos: Everson Vimes, Reginaldo Pereira, Tontoy.
Direção Musical: Tontoy
Músicas: Everson Vimes e Ewertton Nunes
Direção coreográfica: Ana São José
Concepção, Coreografia e Direção Geral: Ewertton Nunes
Trilha Sonora: UBANDU
Músicos: Everson Vimes, Reginaldo Pereira,Ângelo Litlle, Léo Silva e Tontoy
Participação especial: Héloa Rocha

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Vencendo a invisibilidade


Por Maíra Magno*

A respeito do cochicho e desconforto que o blog [Síncope] vem causando entre a classe dos bailarinos de Aracaju, gostaria de lembrar a meus colegas alguns fatos:

Na verdade é a primeira vez que temos um material escrito dedicado à crítica de nossos espetáculos, é a primeira vez em quatro edições da semana de dança e em décadas de existência das Danças Cênicas em Aracaju que alguém perde seu tempo, deliberadamente para escrever algumas linhas comentando nossos trabalhos, tivemos a matéria escrita por Natália Vasconcelos no jornal da UFS no ano passado, mas esta se dedicava mais a cena de dança na cidade que aos espetáculos  em si.

Isso significa que: 'Amém, Aleluia, Glória Deus', não somos mais invisíveis. Afirmamos tantas vezes o ser, no próprio encontro dos artistas de dança de Aracaju essa expressão foi dita várias vezes por vários colegas. Produzimos e nossas produções morrem na estréia, os espetáculos não reverberam, ninguém comenta só sobrevivem na memória daqueles poucos que o produziram ou que de alguma forma se emocionaram com este.

Como era a cena da dança em Sergipe na década de 80? Quem lembra? Onde vamos pesquisar? Quem escreveu uma linha sobre a produção dos grupos? Onde está esta memória? Como podemos saber qual foi a impressão do público sobre esta produção? Como poderemos contar esta história?Quando surgirem outras Carolinas Naturesas que quixotescamente tentarem recriar a historia da produção de dança cênica em Aracaju a partir de 2010, já temos algo escrito e publicado, 'AMÉM' entramos para a história!

Faço minha monografia sobre um pintor sergipano, a única coisa que encontrei escrita sobre o mesmo foi um parágrafo no site da Sociedade Semear. A partir desse parágrafo tracei as diretrizes de meu trabalho, imagina se eu tivesse que deduzir o que escrever sobre o cidadão se não existisse um único ponto de referência?

Gente, acordem, estamos reverberando, a IV Semana de Dança foi um sucesso tão grande que rendeu críticas, que duas pessoas que nem sequer dançam, perderam seus preciosos tempos para se debruçar á critica de alguns dos trabalhos. Como foram as outras edições da Semana de dança? Onde eu posso pesquisar? Há algo escrito? Foi bom? Foi mal? Onde encontro esse material? NADA! NENHUMA PALAVRA, até então éramos invisíveis, e agora?  Agora saímos na chuva e nos molhamos! Podemos escorregar, cair, gripar ou simplesmente tomar banho de chuva que é MUITO BOM! Só não da pra querer sair sequinho de um temporal.

Tocando em outra questão, lembram o que significa vanguarda? Vem do francês Avant Gard, ou seja, são aqueles que estão à frente da guarda, aqueles que quando forem para o front serão os primeiros a serem feridos e alvejados. As pedras atingirão primeiro neles. Quem são os vanguardistas? Os mais corajosos!

A história da arte foi feita por pessoas que ousaram desagradar, quando Nijinsk dançou “Sagração da Primavera” e “Prelúdio de um Fauno”, foi vaiado ferozmente, os críticos escreveram atrocidades sobre a obra, e o que a história nos diz?  Depois dessas obras o balé já não era mais clássico, algo tinha mudado, a história já havia sido feita, e por quê?  Porque incomodou ao ponto de escreverem não duas, mas várias linhas sobre o seu trabalho, porque o trabalho reverberou e ate hoje em 2010 é impossível estudar a historia da dança sem passar por essas obras que tanto incomodaram que foram devastadas pelos críticos.

Onde podemos pesquisar sobre a reação que esses trabalhos causaram ao público? No que foi escrito pelos críticos. Eram todos qualificados? Quem sabe! Mas é por causa deles que podemos traçar uma parte da história, agora imagina só se ninguém tivesse escrito nada? Um marco da historia da dança teria passado absolutamente despercebido. É assim em toda a historia da arte, pra mudar é necessário incomodar, e se ninguém falar nada, bem ou mal, nos manteremos na invisibilidade. E por isso eu clamo: Falem mal, mas falem de mim!

* Maíra Magno é bailarina,professora de Danças Árabes e uma das organizadoras da IV Semana Sergipana de Dança.

terça-feira, 4 de maio de 2010

'Perfumático'



Por Leandro Santolli
Foto : Divulgação


Sabiamente um antigo comercial de TV dizia que a rotina do perfume é a lembrança; exatamente desta forma apresenta-se “Perfume” da Espaço Liso Companhia de Dança, com direção, concepção e coreografia de Ewerton Nunes. O espetáculo apresenta as relações amorosas através de movimentos cotidianos, com a interação das diferentes formas de arte. Questiona a prisão imposta pelo desejo e como as relações vão se desgastando com o tempo e se tornam um disfarce para uma desordem maior.

Aparentemente o espetáculo tenta abordar de maneira objetiva e direta o vazio dos relacionamentos e o quanto estes estão ligeiramente ligados ao perfume das lembranças, analisando o que isto provoca nos indivíduos positiva e negativamente, inclusive passando a sensação da desordem gerada pela falta generalizada de tempo para escutarmos uns aos outros, para aproximarmos nossas diferenças e as colocarmos em questão.

O espetáculo inicia com os bailarinos dispersos e imóveis no palco, criando uma áurea de tensão, que se desenrola posteriormente ao som da canção entoada pelo diretor artístico da  montagem sob os acordes de um violão. A presença cênica é embalada por um incipiente tecnica vocal, que com um pouco mais de treino pode ser resolvida.

O figurino que utiliza peças de uso cotidiano foi a escolha da companhia para o espetáculo. As trocas de roupa em cena já se tornaram característicos de suas  montagens, bem como a utilização  do vermelho e do branco, utilizadas na produção anterior: 'Laços'. Outra peculiaridade da Espaço Liso é uso de projeções , que em 'Laços' dialogava com o espetáculo, mas em Perfume  não, principalmente porque não é bem produzido, então não faria falta ao espetáculo . Os adereços cênicos são muito bem utilizados, toalha, violão, arara, poltrona, tudo se completa ao que é proposto.

O elenco de ‘Perfume’ não deixa a desejar, rico em qualidade técnica e bom entendimento do seu papel no contexto da narrativa, executam os movimentos coreográficos com segurança e naturalidade. As canções da trilha foram, ou parecem ter sido, compostas especialmente para o espetáculo, letras sábias, melodias bonitas, porém a união desta trilha com as coreografias sem exagero algum nos remete aos vídeos-clip da banda Feist ou Beirut, boas lembranças sem cheiro de perfume algum.

A  escolha da participação de “UBANDO” foi uma aquisição ousada , não cabe afirmar se inteligente ou não. Héloa (vocal) tem todos os méritos de uma artista em crescente crescimento, mas destoava do grupo, talvez por nervosismo, por insegurança. A junção destas diversas linguagens ainda é confusa por parte do publico, mas aveitável já que foi a forma mais ousada e usada pelo coreógrafo.

'Perfume'  mostra ainda os mais variados tipos de relacionamentos e seus conflitos, sejá de forma hétero ou homoerótica. Não podemos dizer que é algo relativamente novo, mas se ver as nádegas de um bailarino choca parte do publico, imagine-se que além do nú, temos um beijo gay, num dos pontos mais altos e mais bonitos do espetáculo, incomodando a alguns e enchendo os olhos de outros.

'Perfume' é o espetáculo da boa contradição: simples porém rico, exagerado entretanto íntimo, bem escrito e planejado, faz jus a expectativa gerada em torno de seu desenvolvimento.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Coletivo Insanidade


Por Leandro Santolli
Foto : Arquivo Leilinha Nascimento

Ultimamente a construção de espetáculos que usam o transtorno psiquiátrico como mote tem crescido assustadoramente, bem como os que falam de nordestino e afins, deste modo ou a Cia. sai do denominador comum ou tende a ser repetitivo e chulamente falando chato.

A Cia. Contempodança é ousada e abusada em seu espetáculo ‘Casulo’ que tem  a direção de Leilinha Nascimento  e nos remete a este universo inconsciente fruto de pesquisa e laboratório com o elenco,  onde praticamente inexistem coreografias, as que existem são executadas com tamanha técnica ou beleza, diante do contexto geral dançar ou não passa plenamente despercebido,  também não seria interessante caracterizar como teatro, mesmo vendo o elenco atuar e convencer em seus transtornos mentais.

Não necessariamente deve existir música e nem coreografia para se dançar, a Cia. Parte deste principio e lança ao publico um mix de experimentações que causam inquietudes e perturbações, mostrando com clareza o conceito do espetáculo, explorando a alienação mental e aproximando os  espectadores de um mundo visto por um outro olhar, um outro raciocínio lógico e outras relações afetivas.

O cenário composto pelas conchas acústica do TTB foi uma das grandes sacadas, bem como o uso do tecido acrobático compondo o espetáculo. A trilha assinada por Ton Toy cabe em cheio, e o próprio se faz entender como parte do processo criativo da Cia, a música é executada ao vivo, os mais variados sons dos instrumentos mais inesperados, o chão do procênio talvez seja o melhor exemplo disto, Sulanca também é uma acertada opção na composição da trilha, não poderia ser mais inteligente.

Sérgio Robson assina a iluminação e a direção artística e o faz com grandiosidade, sem grandes efeitos, sem grandes novidades, porque talvez nem coubesse, ainda assim é muito bem elaborada e rica, agrega o espetáculo e não é insano.

Se a finalidade do espetáculo era a de impressionar, o fez com grandeza, envolveu o publico, gerou opiniões controversas, causou frisson, gerou desconforto e agradou a muitos, ainda é possível notar que o nu em cena choca parte do publico sergipano, porém se formos ponderar o mesmo, ver as nádegas de um bailarino no teatro e ver as dançarinas de bandas de forró desta cidade em suas coreografias vulgares é só uma questão de ótica,  então qual o motivo de tanto alarde ?

‘Casulo’ é daqueles espetáculos que vale a pena assistir, principalmente por que nunca irá existir uma opinião formada sobre o que é apresentado, e se existir nunca será a mesma.

domingo, 2 de maio de 2010

Aula Show ?


Por Leandro Santolli
Foto : Arquivo Maíra Magno

Corpos sarados, penduricalhos brilhantes, sensualidade  e ousadia. Poderíamos entender que estes são ingredientes indispensáveis a um espetáculo de dança árabe, todavia tratando-se do comando de Maíra Magno estes ingredientes dão lugar a riqueza cultural de uma outra nação, com  moças vestidas literalmente dos pés a cabeça, com um toque se sensualidade sem parcela alguma de vulgaridade.

Raks el Shaabi - A Dança do Povo, resgata as danças folclóricas típicas de diversas regiões de cultura árabes, que nasceram no seio das manifestações sociais e culturais daquele povo.  O espetáculo tem um formato simples e de fácil entendimento, não defende um conceito, apenas instrui. Seria então uma aula de história? Pode ser visto desta forma, e não seria ofensa por assim dizer, uma vez que antecedendo cada coreografia é exibido um vídeo com informações sobre a dança folclórica que vem a seguir, tornando-o explicativo demais, mas longe de passar uma mensagem de que o público é leigo, mesmo sendo.

A companhia dirigida por Maíra Magno insiste em espetáculos que trazem o mote folclórico, e o fazem de maneira simples, objetiva e bonita. As bailarinas demonstram estar bem ensaiadas e seguras, e  por mais que a coreografia não seja executada da melhor maneira,  o fazem com maestria. Coreografias bem elaboradas e que de fato evidencia a cultura do povo árabe.

Existe riqueza nos detalhes de cada cena exibida, seja nos artesanatos que compõe o aparato cênico, seja nos sete cenários que se intercalam.  A direção artística não deixa a desejar em nada, não há ausência. Os figurinos são em sua totalidade bonitos e com bastante presença cênica, muito bem pensado, elaborado e executado. As bailarinas vestem-se por completo de cultura e riqueza folclórica.

Maíra Magno é a personificação da beleza quando está no palco. Quaisquer elogios seriam redundantes quando tratamos da maior e melhor bailarina de cultura árabe no estado. Só ela consegue prender o publico em suas coreografias com trilhas que chegam a 8 minutos de duração, já que estes são aproveitados ao extremo com sua técnica e sensualidade.

Não é fácil a construção de um espetáculo sobre a cultura árabe, e em Sergipe  ainda pior  por conta da falta de interesse das pessoas em conhecer , em apreciar , em entender, e isto não é pedir demais. Mas outras barreiras ainda podem ser apontadas como fator ponderante para a rejeição de parte do publico como o idioma árabe e a falta de  noção  geográfica e histórica do Oriente Médio. Contudo ‘Raks el Shaabi’ para os que entendem , gostam ou pelo menos tentam apreciar,exibe a importância do resgate cultural e o quanto é satisfatório em  pleno século 21 ainda assistir bailarinas dançando com passos milenares de épocas Bíblicas.

A aula show com direção de Maíra Magno é uma tentativa acertada de passar este conhecimento adiante, e não há nada de mais belo que ver um senhorzinho árabe chorar de saudade de sua terra e de seus antepassados (como eu vi acontecer)

sábado, 1 de maio de 2010

A poesia do encontro


Por Leandro Santolli
Foto : Lúcio Telles

A delicadeza do desabrochar de uma rosa, unido a sutileza de movimentos coreografados e a beleza ora singular , ora pluralista , é desta forma que  desponta no cenário de dança sergipano o Grupo de Dança Rosa Negra.

Em seu espetáculo de estréia as bailarinas dão vazão aos sentimentos mais poéticos, criando uma atmosfera de cumplicidade entre as artistas e o publico, firmes e seguras elas sustentam o sua produção de maneira ímpar, levando os expectadores a uma reflexão do conceito de humanidade pautado na beleza simplória das coisas e na substituição da fala pelo gesto, este por sua vez vem substituir o homem máquina moldado pela velocidade resultante do desenvolvimento das tecnologias de transporte e dos meios de comunicação  pelo homem imerso em afeição e doçura, portanto é bem verdade quando o autor da canção diz “ que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam...”

Carolina Naturesa, Gabriela Carvalho, Izabella Santos e Renata Carvalho fazem de seu corpo poesia , a poesia do encontro entre  acúmen e benevolência e  adentram no terreno controverso e escorregadio sobre as possibilidades de reconstruir e reinventar identidades transitórias no corpo, mas o fazem de maneira plausível e objetiva.

‘Gesto’ marca o início de uma grande jornada para estas mulheres que desabrocharam no palco e que numa sutil metáfora irão transformar os aplausos em entusiasmo criador. As rosas agora são corpos dilatados pelo silencio , mas neste caso trata-se de um lugar de enfrentamentos capaz de gerar resistência e aprendizagem

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Lata d'água na cabeça

Por Leandro Santolli

Retratar a vida das carregadoras de água do rio é mote do espetáculo ‘Estandarte’ da Cia. DançArt de Sergipe. A priori espera-se um espetáculo que retrate a luta dessas mulheres em suas comunidades e afins, que explore seu gestual, cantos, etc. Mas a falta de clareza na construção do espetáculo impossibilita este entendimento.

O espetáculo começa visualmente muito bem, com a diversidade de perfis femininos retratados no palco, as lavadeiras, a carregadora de água, a religiosa e por que não dizer “santa”. As bailarinas sentem e transmitem estes personagens com muita inteligência nos dando a idéia de um espetáculo com bastante potencial, principalmente por conta da trilha que dialoga com a idéia exposta. Porém talvez por falta de direcionamento o espetáculo cai num marasmo, e isto se deve inclusive pela falta de atenção aos detalhes e o quanto estes fazem a diferença no palco.

Coreograficamente não é rico, por hora falta um entendimento dos bailarinos, principalmente por que na tentativa de muito representar, a canastrice vem à tona. Falta um direcionamento artístico. O elenco tem bastante presença cênica, mas não convence em suas ações, não podemos culpá-los por isso, e é claro que uma direção, um olhar crítico de fora do grupo faria bastante diferença.

O figurino assinado pelo Atelier Mundo da Lua é bonito, mas bem longe disto lavadeiras não usariam roupas tão brancas, poderia passar despercebido mas estamos tratando de um conceito definido e defendido pela Cia em sua pesquisa. Na segunda parte do espetáculo a saia branca é trocada por outra nas tonalidades de dourado e vermelho, nos fazendo desacreditar ainda mais no que está sendo proposto.

O desenho do figurino não é ruim, mas não cabe a proposta de “encenação”. Assim também é o macacão collant pérola usado pelo bailarino, fugindo e destoando completamente de todo o grupo e é muito difícil encontrar um significado coerente para o mesmo.

O cenário é simples, com tecidos de chita, o uso ou não do mesmo teria o mesmo efeito, e os adereços de cena poderiam também fazer jus ao que é proposto, afinal lavadeiras lavam roupas, não somente tecidos. Além das latas, supostamente d’água, estarem leves ao extremo. Claro que isto embeleza a cena, mas se existe uma pesquisa por traz, automaticamente tudo deve ser pensado e questionado.

A trilha poderia ser bem mais estudada, e não é difícil criar uma trilha para um espetáculo com esta concepção. Mônica Salmaso, Denize Aragão, Léo Moraes, Elza Soares, Radamés Gantalli, Victor Assis Brasil compõe a escolha da Cia. Por vezes acertam na escolha, mas o uso de muitas músicas de MPB como Maria Rita faz com que o espetáculo caia no tédio, talvez músicas certas para o conceito de espetáculo errado.

O que dizer de Fascinação para uma cena de lavadeiras? Difícil encontrar algum sentido, mas por sorte Elza Soares nos salva deste momento. Se Renata Rosa estivesse na trilha, ou até mesmo as cantoras da Mussuca de Laranjeiras, certamente esta seria bem mais rica, mas vale ressaltar que o fade de uma canção para outra foi muito bem editado, imperceptível até.

A iluminação do espetáculo assinada por Henrique é na sua totalidade muito boa, é o que o espetáculo tem de melhor, e ganha muito por isto, é notório que o iluminador entendeu o mote do trabalho e executou de maneira formidável.

O ponto mais alto do espetáculo é a cena final, as lavadeiras entoando seus cânticos enriquecem o trabalho, e a presença cênica dos bailarinos vem à tona. O final do espetáculo de fato emociona e convence, é muito estruturado e inteligente, fica nítido que o tal estandarte é a lata d’água. O complicado é entender se o estandarte neste caso está associado a um troféu que poderia ser exibido com orgulho.

Entre o aceno e o aperto de mão


Por Michel Oliveira (texto e fotos)

Um figurino que utiliza uma tonalidade próxima a da pele simula uma espécie de nudez. Assim quem está na platéia faz suas primeiras leituras: espera algo tátil, um contato mais próximo, uma sensação de intimidade. Essa foi a estratégia utilizada pelo Grupo Rosa Negra na montagem do espetáculo ‘Gesto’, apresentado na VI Semana Sergipana de Dança.

O vestido cor de pele é bem resolvido, fluido, não atrapalha os movimentos. Mas não é apenas o figurino que compõe um espetáculo. O cenário é um dos elementos que mais chamam a atenção. É bastante simples: estruturas de madeira sustentam cortinas da mesma cor das roupas, a disposição desses elementos no palco é acertada. Para quebrar a monotonia do bege, outras três armações semelhantes são trazidas a cena durante a apresentação, só que sustentando cortinas coloridas. Contas plásticas e correntes de metal descem em cascata pelos suportes, acrescentando brilho ao cenário.

O resultado é interessante: cortinas atrás da grande cortina do palco. Seria metalinguagem ou insinuação da proposta mimética da apresentação? O cenário é utilizado na coreografia, não é um elemento estático, afinal estamos falando de dança não é mesmo?

Essas cortinas estão bem distribuídas no palco, a diagonal formada por elas, em uma das partes da apresentação, é bem executada. Mas poderiam ter sido utilizadas de forma mais criativa, utilizando a semi-transparência do tecido para criar um clima menos explícito, já que a luz não era pontual.


Mas o que poderia ter sido bem amarrado se perde muito devido à trilha sonora. A edição deixou lacunas, há momento “em branco”, que prejudicam a coreografia. Não há uma gradação, as músicas passam como um cd de retalhos. Não há unidade. O fato de algumas músicas serem cantadas prejudica ainda mais, uma vez que a proposta era ressaltar o gesto. A fala, ainda que em outro idioma, chama mais a atenção que o movimento. Não é fácil expressar conceitos através de uma coreografia, então, tudo que possa desviar a atenção do foco principal deve ser evitado. Talvez essa deficiência sonora tenha prejudicado a sincronia de  alguns movimentos.

Apesar desse problema com a trilha, a coreografia tem momentos bons, que mostram a capacidade técnica e o preparo das bailarinas: giros bem executados, utilização de novos eixos de sustentação para o corpo e a variação dos movimentos, inclusive com mudanças de direção.

‘Gesto’ tem momentos, e elementos de destaque, mas ainda é necessário ajustes. O nome do espetáculo está de certa forma descolado, uma vez que não há uma representação mímica. O gesto evoca uma encenação, uma representação mais teatral. É difícil apreender o conceito utilizado para montagem, horas confuso como um aceno, horas firme como um aperto de mão.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

IV Semana de Dança reúne produções locais

Entre os dias 27 de abril e 2 de maio, o Teatro Tobias Barreto recebe a IV Semana Sergipana de Dança. O evento em comemoração ao mês da dança e ao Dia Internacional da Dança, 29, reúne grupos dos mais variados estilos, divulgando as produções existentes no estado. A entrada é gratuita.

Confira a programação:

27/04 (terça)
19h - Conferência de abertura:
Profª Lú Spinelli (Studium Danças) – Dança Moderna X Dança Contemporânea
Profª Ms. Ana São José (Universidade Federal de Sergipe) – Um estudo sobre o Corpo na Dança
Profª Dorinha Teixeira (Academia Sergipana de Ballet) – Explanação sobre sua trajetória em dança
21h30 - (Palco) Espetáculo A Arte do Movimento - Nelson Santos Cia de Dança

28/04 (quarta)
19h30 - (Foyer) Michele Pereira – “Dança Afro”
20h - (Palco) Espetáculo Reverso - Cubos Cia de Dança
21h - (Palco) Espetáculo Gesto - Rosa Negra Grupo de Dança

29/04 (quinta)
19h30 - (Foyer) Janaína Veloso “TAP Dance – Sapateado” e Claudia Maia “Dança de Salão”
20h - (Palco) Espetáculo Estandarte da Vida - Cia DançAr’t
21h - (Palco) Espetáculo Emoções - Entre nós Cia de Dança

30/04 (sexta)
19h30 - (Foyer) Rejane Cruz - “Dança Flamenca”
20h - (Palco) Espetáculo Terra - Juventus Cia de Dança
21h - (Palco) Espetáculo Faces - Grupos Irmãos de Rua e Ara Dance

01/05 (sábado)
19h30 - (Entrada TTB) - Julieta Menezes – Performance “Corpo”
20h - (Palco) - Espetáculo Raks el Shaabi - A Dança do Povo - Cia de Danças Maíra Magno
21h - (Palco) - Espetáculo Casulo - Cia Contempodança

02/05 (domingo)
19h - (Foyer) - César Leite - Performance “A Mulher Peixão”
20h - (Palco) - Espetáculo D’Vida - Catarse Grupo de Dança
21h - (Palco) - Espetáculo Perfume - Espaço Liso Cia de Dança

terça-feira, 20 de abril de 2010

Cinco "meninos"


Por Leadro Santolli
Foto: Arquivo da Cubos

A aparência infantil esconde a grandiosidade profissional que os “meninos” da Cubos levam consigo. Mais do que sua maneira de dançar eles fizeram de seu espetáculo ‘Cubos ao cubo’ um verdadeiro manifesto, inventando uma estética única, especial, na qual estar ou não na “moda” não faz a menor diferença.

É notória a sede que a companhia tem de imaginar e trazer o novo. É a diversidade popular brasileira. É um delírio visto como poesia, a estética como expressão. Mas para além do espetáculo o que mais encanta é a coletividade, a consciência de grupo e a dedicação a arte a que os “meninos” se propõem. Suas manifestações e críticas sociais estão disfarçadamente escondidas em seus espetáculos e cabe somente ao publico entender a simbologia usada e assim fazer sua reflexão pessoal.

A Cubos nos presenteia sempre com uma arte fora do obvio e de grande fascínio. No processo de trabalho fiquei extasiado após nossa primeira conversa margeada por tantos ensinamentos e discursos, o que pude constatar também numa oficina pós-espetáculo onde foram mostrados os processos de criação, por sua vez tão portentosos, imensos, construídos logo por cinco “meninos”.

Comovi-me por entender que estava diante de inventores artísticos que muito farão e que tem uma história fantástica a ser contada. Vejo revistas e críticos cobrando que se faça coisa nova, e  de fato os artistas em Sergipe têm procurado fazê-las. O problema é que quando eles chegam com estas novas os veículos de comunicação dizem que não é o “perfil”. Talvez a comunicação é que precise estar mais adaptada ao que é novidade, e isso fica bem claro quando vemos a batalha da Cubos e de tantas outras companhias espalhadas pelo estado a procura de espaço.

Em dado momento de nossa conversa, nos 45 minutos que antecediam o espetáculo ‘Reverso’, pude registrar a preocupação que um tem com o outro, isto inclui os técnicos e as pessoas envolvidas no trabalho, a exemplo de Altair Santo, figurinista do espetáculo, que compartilhava conosco desta troca de experiências. 

Talvez este seja o principal alicerce da Cubos: “respeito, respeito e respeito”, principalmente porque no âmbito de artes o que mais se tem crescido é o ego, ao contrário do profissionalismo. Repetidas vezes me veio à memória o célebre ensinamento de Stanislavski: “ame a arte em você e não você na arte”.

Depois da maratona de espetáculos e da oficina, a vontade que se tem é de abraçá-los  e parabenizá-los. Mas diferente disto meu desejo maior, e assim o fiz, foi agradecer pela riqueza de informações, pela ousadia na arte, pela dedicação e principalmente por me fazer entender mais uma vez que estes cinco “meninos” são, sem dúvida alguma, um dos maiores representantes da dança neste estado.

A Cubos é uma usina de criação que nunca para e, com os sentidos fervendo, nos levam aos caminhos de uma arte inteligente. Seu maior ensinamento é o valor do trabalho coletivo. Isabele, Júlia, July Ellen, Rodolpho e Viviane: cinco “meninos" que vivem da invenção. A bacia, o apito, a varinha de condão, o vestido, a máscara. Tudo, em suas mãos, é matéria-prima, de susto e beleza.

domingo, 18 de abril de 2010

Direito ou avesso?


Por Michel Oliveira
Foto: Fábio Pamplona

Não se pode dizer que a Cubos Companhia de Dança amadureceu com o espetáculo ‘Reverso’. A companhia já estava madura desde as montagens anteriores. Os cinco bailarinos se multiplicam no espetáculo ‘Multipleto’. O figurino é etéreo, leve. A trilha é cativante e a variedade dos movimentos mostra o preparo de Rodolpho Sandes, Isabele Ribeiro, Julia Delmondes, July Ellen Lázaro e Viviane Gonzaga. E se a companhia é formada por cubos encontraram um excelente encaixe, a sintonia é nítida.

Mas em ‘Reverso’ a história é outra. Procura nuances que muitas vezes passam despercebidas, apesar de serem explícitas. São as lavadeiras no rio, o assuar de nariz, a ‘sibiteza’ e a ‘munganga’. A vida e a morte em contínua coreografia. Um Nordeste de dramas e alegrias. De um povo que sabe chorar, mas que também sabe fazer festa.  De namoricos na janela. Cortejos e procissões. Som de pífano, de maracatu, de pisada de pé. E como não podia faltar: água.

O figurino, assinado por Altair Santo, ganha fluidez com a precisão do corte e com o uso de forros leves, como tules coloridos. As cores são neutras, preto, branco e cru, com exceção do figurino vermelho, feito de malha trabalhada com textura de fitas de cetim. Ruptura necessária para evitar o previsível.

No fundo do palco uma cascata brilhante desce do teto até o chão. Uma cachoeira de anéis de garrafa pet, abuso da cenografia que enche os olhos. Estrelas do mesmo material se acendem com um foco de luz. A iluminação é precisa, focos em pontos específicos do palco. Em outros momentos feixes de luz são projetados, nunca revelando o todo. Há sempre uma penumbra envolvendo os movimentos. A trilha sonora é um passeio pelo repertório popular, de um nordeste que se expande além das fronteiras.

O espetáculo pretende fazer uma desconstrução do Nordeste, mostrar seu avesso. Mas o que ele consegue, e de forma muito acertada, é retratar. Um retrato coreografado de jeitos de ser. Sem caricaturas, nem estereótipos. A pretensão não é fazer um tratado sobre o Nordeste, mas mostrar um olhar, um recorte. Direito ou avesso? ‘Reverso’.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cubos Cia. de Dança se apresenta no Tobias Barreto

 
Nos próximos dias 15 e 16, a Cubos Companhia de Dança comemora seu terceiro ano de existência com a apresentação Cubos ao Cubo. Durante os dois dias serão apresentadas três montagens da companhia: ‘Brincando’ (dia 15, às 20h), ‘Mutipleto’ e ‘Reverso’ (dia 16, às 21h).

Os ingressos estão à venda no stand montado no Shopping Jardins (em frente à loja Insinuante) e custam R$10 (inteira) e R$5 (meia). Quem for ao teatro vai conferir ainda uma mostra fotográfica, com trabalhos de Ítalo Prata, Mirna Garcia e Rosinha Teles. No dia 17, às 9 horas, a companhia ministrará gratuitamente uma oficina de dança contemporânea, as inscrições acontecem no stand de vendas.

Histórico

A Cubos Cia. de Dança nasceu em Aracaju, no ano de 2007, com a montagem do espetáculo ‘As quatro estações de um ser’. Atualmente é composta por Rodolpho Sandes, Isabele Ribeiro, Julia Delmondes, July Ellen Lázaro e Viviane Gonzaga, bailarinos com formação diversificada, o que confere variedade a companhia e singularidade aos espetáculos.

Em três anos de trabalhos ininterruptos a Cubos já fez mais de 30 apresentações oficiais, algumas delas fora do estado.  Em 2008 a companhia foi contemplada com o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna, pela montagem do espetáculo ‘Reverso’. 

sábado, 10 de abril de 2010

Uma pausa ao ordinário

Por Leandro Santolli e Michel Oliveira

Não existe arte sem crítica. Isso é um fato. O maior pressuposto da arte é o incomodo interior. Passamos de fase. A arte não tem mais a função de trazer conforto, pelo contrário. As produções contemporâneas têm se debruçado sobre o que traz rupturas. Procura novos caminhos e rumos.

Sempre se ouve queixas da inércia cultural de nosso estado. Situação que em partes é verdade, uma vez que as produções locais ainda são abafadas pelo que vem de fora. Mas, há produções locais de qualidade? Temos realmente artistas que mereçam destaque? Sergipe tem público consumidor para a arte? Só com um olhar crítico podemos encontras as repostas.

Seria uma ousadia dois estudantes, um de jornalismo e outro de teatro, criar um blog de crítica? A resposta fica para os leitores. A crítica é inerente à produção da cultura, uma vez que a própria arte é uma forma de crítica.

O [Síncope] é o único blog voltado para a crítica de arte no Estado de Sergipe, e isso  traz uma responsabilidade imensa. Queremos que os leitores encontrem por aqui uma crítica pautada, uma análise das produções artísticas, uma fuga do ordinário que tomou conta dos jornais e revistas.

O crítico contemporâneo precisa aceitar os desafios que as novas perspectivas da arte trouxeram. A idéia é justamente esta, dialogar com os criadores, compreender os processos, fragmentar até chegar à essência. Só assim evitaremos o risco de confundir uma vanguarda com modismo e enaltecer modismos como novidade.

Este espaço está aberto. Esperamos comentários, sugestões e, obviamente, críticas. Entre em contato através do email: blogsincope@gmail.com.