Por Michel Oliveira (texto e fotos)
Um figurino que utiliza uma tonalidade próxima a da pele simula uma espécie de nudez. Assim quem está na platéia faz suas primeiras leituras: espera algo tátil, um contato mais próximo, uma sensação de intimidade. Essa foi a estratégia utilizada pelo Grupo Rosa Negra na montagem do espetáculo ‘Gesto’, apresentado na VI Semana Sergipana de Dança.
O vestido cor de pele é bem resolvido, fluido, não atrapalha os movimentos. Mas não é apenas o figurino que compõe um espetáculo. O cenário é um dos elementos que mais chamam a atenção. É bastante simples: estruturas de madeira sustentam cortinas da mesma cor das roupas, a disposição desses elementos no palco é acertada. Para quebrar a monotonia do bege, outras três armações semelhantes são trazidas a cena durante a apresentação, só que sustentando cortinas coloridas. Contas plásticas e correntes de metal descem em cascata pelos suportes, acrescentando brilho ao cenário.
O resultado é interessante: cortinas atrás da grande cortina do palco. Seria metalinguagem ou insinuação da proposta mimética da apresentação? O cenário é utilizado na coreografia, não é um elemento estático, afinal estamos falando de dança não é mesmo?
Essas cortinas estão bem distribuídas no palco, a diagonal formada por elas, em uma das partes da apresentação, é bem executada. Mas poderiam ter sido utilizadas de forma mais criativa, utilizando a semi-transparência do tecido para criar um clima menos explícito, já que a luz não era pontual.
Mas o que poderia ter sido bem amarrado se perde muito devido à trilha sonora. A edição deixou lacunas, há momento “em branco”, que prejudicam a coreografia. Não há uma gradação, as músicas passam como um cd de retalhos. Não há unidade. O fato de algumas músicas serem cantadas prejudica ainda mais, uma vez que a proposta era ressaltar o gesto. A fala, ainda que em outro idioma, chama mais a atenção que o movimento. Não é fácil expressar conceitos através de uma coreografia, então, tudo que possa desviar a atenção do foco principal deve ser evitado. Talvez essa deficiência sonora tenha prejudicado a sincronia de alguns movimentos.
Apesar desse problema com a trilha, a coreografia tem momentos bons, que mostram a capacidade técnica e o preparo das bailarinas: giros bem executados, utilização de novos eixos de sustentação para o corpo e a variação dos movimentos, inclusive com mudanças de direção.
‘Gesto’ tem momentos, e elementos de destaque, mas ainda é necessário ajustes. O nome do espetáculo está de certa forma descolado, uma vez que não há uma representação mímica. O gesto evoca uma encenação, uma representação mais teatral. É difícil apreender o conceito utilizado para montagem, horas confuso como um aceno, horas firme como um aperto de mão.